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14/10/2018
Autor: Ivonise Fernandes da Motta
A IMPORTANCIA DA SUPERVISÃO NA FORMAÇÃO CLÍNICA
Por nossa Associada Prof. Dra. IVONISE FERNANDES DA MOTTA



A IMPORTANCIA DA SUPERVISÃO NA FORMAÇÃO CLÍNICA

IVONISE FERNANDES DA MOTTA

8 DE OUTUBRO DE 2018

 

Freud concebeu a Psicanálise como um método de investigação do inconsciente, um método de tratamento e um modelo teórico-metodológico. Como procedimento psicoterápico, a pesquisa dos processos inconscientes demanda tempo e, portanto, a análise é um processo longo sem duração predeterminada. A psicoterapia é um processo mais específico e focado, com objetivos limitados. Mezan (1998)[1] assinala que a diferença entre a psicanálise e a psicoterapia é o uso e manejo realizado com a regressão. A regressão é um processo psíquico facilitado pelo setting analítico, uso do divã, sessões frequentes várias vezes por semana, neutralidade do analista. Algumas psicoterapias vão se utilizar dos processos regressivos, porém a análise se diferencia pelo manejo desse processo. Na análise o processo tem manejo estreitamente conjugado com a transferência e requer interpretações centradas nesse ponto. A interpretação transferencial é um diferencial marcante.

No âmbito da Psicanálise quatro elementos são fundamentais: o inconsciente, a transferência, a resistência e a interpretação. O trabalho clínico que não as emprega como elementos centrais, podemos nomear por psicoterapias.

No âmbito das psicoterapias breves, Knobel (1998)[2] assinala que o diferencial está no manejo dos quatro aspectos fundamentais da Psicanálise: transferência (neurose transferencial), regressão, processo de elaboração, relação de objetos. No âmbito institucional é possível a realização de psicoterapias e em frequência maior psicoterapias breves.

Freud apontava como uma perspectiva de futuro o uso da Psicanálise para atendimento de populações menos privilegiadas financeiramente. Para tanto, sugeriu a necessidade de adaptações da técnica abrindo caminho para a ideia de que a flexibilidade da técnica seria algo necessário à ampliação de sua utilização.

Várias propostas desse tipo de trabalho foram realizadas na América do Sul. No Brasil, pode-se destacar a de Simon (2005)[3] Psicoterapia Breve Operacionalizada, que foi elaborada com a preocupação de se fazer uma Psicologia Clínica Preventiva.

Nos dias atuais a velocidade se apresenta como uma das características marcantes de nossa realidade (Motta, 2006a)[4]. O psicólogo é cada vez mais requisitado para intervenções breves e pontuais. Os pais procuram auxílio para o desempenho de suas funções parentais nos mais diferentes momentos e idades de seus filhos por dificuldades encontradas no desempenho de suas funções parentais e por dificuldades vivenciadas no desenvolvimento psíquico de seus filhos. Com os avanços no campo das psicoterapias de orientação psicanalíticas e psicodinâmicas, temos confirmado a eficácia e pertinência das intervenções psicoterápicas de breve duração tanto em âmbito privado como institucional (Motta, 2006b)[5].

Os pais com frequência solicitam ajuda por dificuldades encontradas no exercício de suas funções parentais, sendo que os sintomas apresentados pelo filho refletem, com frequência, dificuldades não resolvidas pelos pais, principalmente pela mãe. Neste panorama, o psicólogo tem lugar fundamental no sentido do desenvolvimento psíquico e da saúde mental (Motta, 2008)[6].

Os fenômenos transicionais, ao facilitarem o caminho para o mundo social, irão adquirindo presença e espaço cada vez maior desde o início da infância e irão se ampliando com o passar dos anos. Na adolescência, a vida cultural pode vir a ter lugar de facilitação dos processos integrativos característicos dessa fase da vida. Movimentos regressivos e progressivos ocorrem visando constituir discriminação das figuras parentais e entrada gradativa no mundo adulto (Silva & Motta, 2015)[7].

 Winnicott (1965b/1982)[8], ao acreditar na existência de um potencial humano que evolui no sentido do crescimento e da saúde, reforça a crença na disposição individual em superar e transformar crises e conflitos. Falhas ambientais de provisão nas mais diferentes épocas da vida podem dificultar os processos de integração. Nessa perspectiva, intervenções psicoterápicas podem ser realizadas para potencializar possibilidades de transformação e mudança de posicionamento de vida que são possíveis de serem traçadas, apesar das dificuldades que por vezes acontecem (Catafesta, 1996)[9].

            Há diversas propostas de psicoterapia breve de orientação psicodinâmica que buscam responder à demanda atual por ajuda psicológica, ajustando-se a ela, antes que a um referencial teórico (Yoshida, 2013)[10]. Cabe assinalar que as diferentes propostas atuais de psicoterapia breve psicodinâmica podem ser resumidamente caracterizadas pelo trabalho em torno do foco, que inclui conflitos cuja resolução passa pela experiência emocional propiciada pela situação terapêutica, fortemente determinada pela atitude e pela pessoa do terapeuta.

 

Nessa perspectiva, a formação de profissionais em psicoterapia requer atenção e reflexão. Tanto os iniciantes, alunos de graduação em Psicologia como os mais experientes, estagiários dos cursos de pós graduação e especialização demandam por interlocução e alargamento de conhecimentos. Nesse lugar está inserida a supervisão em psicoterapia, tanto as de longa  quanto as de curta duração.

 

O ambiente seguro, suficientemente bom que a supervisão proporciona possibilita ao psicoterapeuta vivenciar suas angústias e retomar o processo promovendo essa mesma oportunidade no setting terapêutico (Obara & Motta, 2008)[11].

A supervisão se constitui um espaço de “holding”, um espaço de contenção de angústias objetivando a facilitação da experiência e compreensão dos processos transferenciais e contratransferenciais. Proporciona interlocução para os conflitos, dúvidas, dificuldades do estagiário. Intervenção facilitadora e formadora da atitude clínica de formulação de hipóteses diagnósticas e de intervenções terapêuticas, ou seja, da construção do raciocínio clínico (Motta, 2006c)[12].  . .

           O psicoterapeuta através da supervisão caracterizada por holding e acolhimento, encontra uma experiência que o insere além das teorias. Coloca-o na experiência de um contato com as mais diferentes facetas das vicissitudes humanas. Nesse sentido, o olhar do supervisor de confiança no trabalho que está sendo realizado pela dupla pode ser promotor de avanços e progressos.

       A supervisão em psicoterapia com abordagem psicanalítica psicodinâmica apresenta ao psicoterapeuta modelo de referência para o trabalho que é desenvolvido em cada um dos atendimentos realizados. Hipóteses diagnósticas e diversas intervenções psicoterápicas vão compondo o experienciar, passo a passo, da constituição gradativa de um tipo de trabalho que está em curso, em movimento, compondo a base de sustentação da identidade profissional de um clínico.

  

                            REFERÊNCIAS

 

Catafesta, I. F. M. (1996). Potencialidade para a saúde ou algumas reflexões sobre a capacidade para a integração. In Catafesta, I. F. M. (Org.), D. W. Winnicott na Universidade de São Paulo (pp.131-142). São Paulo, SP: Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Knobel, M. (1986) Psicoterapia Breve. Temas Básicos de Psicologia. São Paulo, SP: EPU.

Mezan, R. (1998). Tempo de Muda. São Paulo, SP: Companhia das Letras.

Motta, I. F. (2006a). A Psicanálise no século XXI: Um momento de reflexão. In Motta, I. F. (Org.), Psicanálise no século XXI: As Conferências Brasileiras de Robert Rodman (pp. 285-294). Aparecida, SP: Idéias e Letras.

Motta, I. F. (2006b). Orientação de Pais. Novas Perspectivas no Desenvolvimento de Crianças e Adolescentes. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.

Motta, I. F. (2006c). A função da supervisão psicanalítica na formação do psicoterapeuta. In Simon, R. & Levinzon, G. K. (Orgs.), Progressos em Psicoterapia Psicanalítica. Dez anos, uma história (pp.395-419). São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.

Motta, I. F. (2008). Intervenções Psicoterápicas no Desenvolvimento Psicológico: O trabalho com os pais. Gomes, I. C. (Coord.), Família. Diagnóstico e Abordagens Terapêuticas (pp.113-123). Rio de Janeiro, RJ: Ed. Koogan.

Motta, I. F. (2016). Psicoterapia Psicanalítica na Atualidade: Comunicação, Confiança e Esperança. In Simon, R.; Yamamoto, K. & Levinzon, G. (Orgs.), Novos Avanços em Psicoterapia Psicanalítica (pp.32-42). São Paulo, SP: Zagodoni Editora.

Obara, C. S. & Motta, I. F. (2008). O ódio na Construção da Personalidade: aprendendo com a integração no self de experiências com tapas, chutes, violetas. In Rosa, J. T. & Motta, I. F. (Orgs.), Violência e Sofrimento de Crianças e Adolescentes na Perspectiva Winnicottiana, (pp.91-96). Aparecida, SP: Idéias e Letras.

Silva, C. Y. & Motta, I. F. (2015). Entre versos e rimas: uma reflexão sobre a criatividade no RAP. Winnicott e-prints, 10(1), 1-23. Recuperado de shttp://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-432X2015000100005&lng=pt&tlng=pt

Simon, R. (2005) Psicoterapia Breve Operacionalizada: Teoria e Técnica. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.

Winnicott, D. W. (1978). Aspectos Clínicos e metapsicológicos da regressão dentro do setting psicanalítico. In Winnicott, D. W. Textos Selecionados da Pediatra a Psicanálise (pp.459-481). Rio de Janeiro, RJ: F. Alves. (Trabalho original publicado em 1954-5).

Yoshida, E. M. P. (2013). Evolução das psicoterapias breves psicodinâmicas. In Yoshida, E. M. P. e Enéas, M. L. E. (Orgs.), Psicoterapias psicodinâmicas breves – propostas atuais (pp. 11-36). Campinas, SP: Alínea.



[1] Mezan, R. (1998). Tempo de Muda. São Paulo, SP: Companhia das Letras.

 

[2] Knobel, M. (1986) Psicoterapia Breve. Temas Básicos de Psicologia. São Paulo, SP: EPU.

[3] Simon, R. (2005) Psicoterapia Breve Operacionalizada: Teoria e Técnica. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.

 

[4] Motta, I. F. (2006a). A Psicanálise no século XXI: Um momento de reflexão. In Motta, I. F. (Org.), Psicanálise no século XXI: As Conferências Brasileiras de Robert Rodman (pp. 285-294). Aparecida, SP: Idéias e Letras.

 

[5] Motta, I. F. (2006b). Orientação de Pais. Novas Perspectivas no Desenvolvimento de Crianças e Adolescentes. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.

[6] Motta, I. F. (2008). Intervenções Psicoterápicas no Desenvolvimento Psicológico: O trabalho com os pais. Gomes, I. C. (Coord.), Família. Diagnóstico e Abordagens Terapêuticas (pp.113-123). Rio de Janeiro, RJ: Ed. Koogan.

 

[7] Silva, C. Y. & Motta, I. F. (2015). Entre versos e rimas: uma reflexão sobre a criatividade no RAP. Winnicott e-prints, 10(1), 1-23. Recuperado de shttp://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-432X2015000100005&lng=pt&tlng=pt

 

[8] Winnicott, D. W.  (1982). O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre, RS: Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1965b).

 

[9] Catafesta, I. F. M. (1996). Potencialidade para a saúde ou algumas reflexões sobre a capacidade para a integração. In Catafesta, I. F. M. (Org.), D. W. Winnicott na Universidade de São Paulo (pp.131-142). São Paulo, SP: Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

 

[10] Yoshida, E. M. P. (2013). Evolução das psicoterapias breves psicodinâmicas. In Yoshida, E. M. P. e Enéas, M. L. E. (Orgs.), Psicoterapias psicodinâmicas breves – propostas atuais (pp. 11-36). Campinas, SP: Alínea.

 

[11] Obara, C. S. & Motta, I. F. (2008). O ódio na Construção da Personalidade: aprendendo com a integração no self de experiências com tapas, chutes, violetas. In Rosa, J. T. & Motta, I. F. (Orgs.), Violência e Sofrimento de Crianças e Adolescentes na Perspectiva Winnicottiana, (pp.91-96). Aparecida, SP: Idéias e Letras.

 

[12] Motta, I. F. (2006c). A função da supervisão psicanalítica na formação do psicoterapeuta. In Simon, R. & Levinzon, G. K. (Orgs.), Progressos em Psicoterapia Psicanalítica. Dez anos, uma história (pp.395-419). São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.