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10/12/2018
Autor: Angela Hiluey
Alicerce da relação eu-outro. Um espaço de descobertas sobre convívio
V CBP: Elcie F. Salzano Masini


Tipo de atividade: Conferência

Nome do autor: Elcie F. Salzano Masini

 

Instituição de origem do autor: FE-USP

 

Financiador: NA

 

Título da Conferência: Alicerce da relação eu-outro. Um espaço de descobertas

                                     sobre convívio.

 

Eixo II: Práticas profissionais da psicologia em contextos sem muros

 

Processo: Processos Educativos

 

Área: Formação em Psicologia

 

Palavras chave (3): Perceber; Ser humano; Relação

 

Apresentadora: Angela Hiluey (ABRAP; CEF; LIDE-IPUSP)

 

Resumo

Uma proposta para explorar, aprofundar e desvelar diferentes caminhos e maneiras do ser humano entrar em contato com o que o cerca, no uso de sua sensibilidade. Implica desvendar a experiência perceptível, que se dá no corpo - na sua estrutura de relações com as coisas ao seu redor. Objetiva: delinear o embasamento filosófico da dialética do perceber na existência – impasses e perspectivas; desvendar como aproximar – se de uma pessoa para saber sobre seu perceber, seus sentidos de vida, considerando – a em sua integridade; oferecer oportunidade de dialogar sobre as implicações especificamente na relação educacional, formal e cotidiana. Embasa - se na Fenomenologia da Percepção de Merleau – Ponty (Cf. 1945) - perplexidade diante do mundo, anseio incessante de recomeçar e recusa da cristalização em sistema acabado e fechado. Como método, se deixa praticar e reconhecer como estilo e como movimento. O sujeito da percepção é o corpo - solo da significação da relação do sujeito no mundo

 

Introdução

Merleau – Ponty (Cf. 1945) aprofunda o estudo da percepção que emerge da relação corporal do homem no mundo, em investigações nas quais o sujeito da percepção é o corpo e não mais a consciência concebida separadamente da experiência vivida, da qual provém o conhecimento. O corpo é, assim, visto como fonte de sentidos, isto é, de significação da relação do sujeito no mundo – sujeito visto na totalidade, na sua estrutura de relações com as coisas ao seu redor. Ao falar da percepção chama atenção principalmente para o fato de que o que é percebido por uma pessoa (fenômeno) acontece num campo do qual ela faz parte: a identidade do mundo percebido vai ocorrendo por meio de suas próprias perspectivas e vai se construindo em movimentos de retomada do passado e abertura para o futuro, sempre sendo possível novas perspectivas. Para compreender a complexidades do aprender, é necessário considerar o sujeito da percepção e saber de sua experiência perceptiva.

 

Conceitos centrais da Fenomenologia da Percepção

As coisas “se pensam” em cada pessoa, porque não é um pensar intelectual, no sentido de funcionamento de um sistema, mas sim do saber de si ao saber do objeto, posto que ao entrar em contato com o objeto, o sujeito entra em contato consigo mesmo, como ilustra a afirmação a seguir de Merleau – Ponty (1971, 212):

As coisas e o mundo são dados como partes do meu corpo, não por sua “geometria natural”, mas sim numa conexão comparável, ou mais certamente idêntica àquela que existe entre as partes do meu corpo

 

A ênfase deste filósofo é de evidenciar que a relação no mundo é corporal e sempre significativa. Cada um está cercado de objetos que têm a marca humana e que constituem o cultural, o primeiro é o corpo do outro no qual está gravada uma experiência humana, o lugar de uma certa elaboração, de um certo horizonte. Por meio de seu corpo vivo, que tem a mesma estrutura do meu, sei como o outro se serve de objetos familiares de um mesmo mundo físico e cultural do qual compartilhamos.

Ao considerar o sujeito no mundo, como corpo no mundo – corpo que sente, que sabe, que compreende – Merleau – Ponty assinala a importância da experiência perceptiva e ensina que o conhecimento emerge do saber latente que ocorre no corpo próprio1.

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1 Corpo próprio expressão usada para referir – se à experiência corporal de cada pessoa

A experiência perceptiva (que é corporal) surge da relação dinâmica do

corpo como um sistema de forças no mundo e não da associação que vem dos

sentidos.  Assim, o corpo é visto numa totalidade, na estrutura de relação com

as coisas ao seu redor – como fonte de sentidos.

 Ao tomar a percepção como solo originário do conhecimento, este fenomenólogo aponta um caminho para saber da pessoa no seu ato de aprender. Para compreender aquele que aprende e sua maneira de relacionar – se no mundo que o cerca, há sempre a considerar suas estruturas perceptual e cognitiva, que exprimem ao mesmo tempo a forma, o conteúdo e a dialética entre ambas. O ponto de partida é, pois, saber de sua experiência perceptiva.

Retomando a afirmação de Merleau – Ponty (1971, p. 143), “o sujeito penetra no objeto pela percepção e através de seu corpo o objeto regula diretamente seus sentimentos”, pode – se afirmar que o ponto de partida para o diálogo com esse sujeito é a atenção ao que ele manifesta: gestos, expressões e atitudes do seu corpo no mundo onde está. Cada órgão dos sentidos interroga o objeto à sua maneira. A pessoa surda dirige e passeia o olhar para saber sobre as pessoas e objetos que a rodeiam de modo diverso daquele que dispõe da audição. A visão nada seria para aquele que é surdo, se não fosse um certo uso que ele faz do olhar. Seu estilo de fixar, contemplar, perscrutar, comparar vai revelando novos aspectos dos objetos e do seu próprio corpo, ao encontrar diferentes maneiras e explora – los, compondo sua experiência perceptiva.

A atenção às suas manifestações pelos educadores poderá indicar suas formas de participação, ou de ausência de participação, que revelam suas vias de percepção e suas experiências perceptivas. Essa atitude, propícia à experiência do diálogo, evidencia disposição para a busca dos meios apropriados para que a comunicação possa ter seu ponto de partida.

O que está sempre sendo enfatizado é a relevância do contato no mundo, que este ser precisa ter com pessoas e objetos, por meio dos sentidos de que dispõe, sempre em interação. Essa atitude Merleau – Ponty (1971, p. 56), reitera que é a frequentação ingênua do mundo que torna possível a reflexão, pois o mundo está aí ante de qualquer análise

... só me foi dado chamar o mundo e os outros a mim e tomar conhecimento da reflexão, porque desde o início estava fora de mim, junto aos outros, sendo que a todo momento essa experiência vem alimentar minha reflexão.

É, pois, da reflexão sobre o vivido e da atenção à experiência perceptiva que emergem os significados da pessoa no mundo. Assim, é necessário estar atento, às manifestações daquele que aprende, sobre o que ele percebe, sobre como percebe e como lida com o que o cerca. A reflexão, por exemplo, daquele com deficiência visual surge de sua experiência de habitar o mundo por meio de sua palpação tátil, em que interroga o objeto de forma mais próxima do que se o fizesse com o olhar. É o movimento e a direção de suas mãos que o farão sentir as texturas do liso e rugoso, a temperatura fria ou quente, o ar mais abafado quando se aproxima de uma parece, acompanhado pela alteração de sua voz ouvida e sua voz articulada, que se altera ante um obstáculo ou em ambiente aberto. Essas percepções de tatear, que ocorrem com seus movimentos de mãos e dedos, de articular a voz, de ouvir, de sua comunicação e de sua locomoção no espaço, estão unidas no seu corpo, no mundo e compreendidas pela reflexão sobre cada uma dessas experiências.

Este fenomenólogo mostra que essa unidade de reflexão não é soma ou resultado, mas é preciso sentir de alguma maneira para poder pensar e todo o pensamento advém de uma carne. Assim, para poder saber, de uma pessoa com ou sem deficiência sensorial, é necessário aproximar – se de seu corpo e da experiência que ela tem por meio dos sentidos de que dispõe e, como deles faz uso de maneira total e não fragmentada. O corpo próprio de cada um está no mundo em sua experiência perceptiva. Constituindo o solo do conhecimento, é indispensável considerar a experiência perceptiva na busca de uma compreensão do aprender na sua complexidade, no seu viver factual. Isso torna claro que é preciso partilhar com aquele que aprende do conjunto dos caminhos de seu corpo, no fazer do dia-a-dia. O que não se pode desconhecer é que as pessoas com ou sem deficiência visual têm dialéticas diferentes, devido aos seus conteúdos, cuja especificidade é a de referir – se aos sentidos predominantes de que dispõem.

Essa dialética se renova em cada um, em seu próprio corpo, na mais simples das percepções, como na exploração sensorial. Os sentidos (visual, tátil, auditivo, gustativo, cinestésico) traduzem – se uns aos outros sem necessidade de um intérprete, ao fazerem do corpo o sujeito da percepção. Cada órgão dos sentidos interroga o objeto à sua maneira: a visão não é nada sem um certo uso do olhar e a maneira que o sujeito dirige e passeia seu olhar é de um modo diverso da de sua mão explorando tatilmente. Nunca o campo tátil está inteiramente presente em cada uma de suas partes como ocorre no campo visual.

Os sentidos são distintos uns dos outros, e distintos da intelecção [...] a série de experiências de cada indivíduo se dá como concordante porque: cada aspecto da coisa percebida é um convite a perceber além (constitui uma parada no processo perceptivo); a síntese perceptiva possui o segredo do corpo próprio e não o do objeto. Assim, falar da percepção é falar do corpo, pois [...] Meu corpo é a textura comum de todos os objetos e ele é, pelo menos em relação ao mundo percebido o instrumento geral de minha compreensão (Merleau – Ponty, 1971, passim).

 

Esta comunicação, que busca assinalar as condições para ocorrência do aprender, no uso da compreensão e reflexão, enfatiza a importância de se estar atenta à experiência perceptiva daquele que aprende e à sua relação corporal com o mundo que o rodeia - pessoas e objetos.

Este enfoque relacional do aprender no processo do professor e aluno vistos como sujeitos, com suas especificidades de perceber e idiossincrasias na inter-relação de suas identidades pessoais, implica um enfoque epistemológico condizente; embasamento nas escolas filosóficas que veem o mundo como um todo e propõem uma abordagem para a construção do conhecimento, que envolve mudanças de paradigmas reducionistas. Quanto ao ensino para a aprendizagem, constitui um desafio: propiciar condições àquele que aprende, para que, como afirma Moreira (2005, p.10), “pudesse enfrentar a incerteza e a ambiguidade sem se perder”. É um ponto de vista que substitui o paradigma da unidimensionalidade do estudo da aprendizagem ao aspecto intelectual e enfatiza a dimensão existencial do conhecer, unindo áreas do conhecimento na busca de uma compreensão dessa experiência vivida. Envolve um método de observação social que considera a construção de um arcabouço científico embasado nas relações entre pessoas envolvidas e as funções exercidas no todo comunicativo entre elas e as consequentes imbricações dos sistemas institucionais em que se encontram. Envolve concepções de pensadores que criticam a fragmentação e aprofundam questões sobre o conhecimento na sua complexidade.


Referências

Ausubel, D. P. The psychology of meaningful verbal learning: An Introduction do School learning. New York: Grune and Stratton, 1963.

Ausubel, D.P.  Educational psychology: A cognitive view. New York: Holt, Rinehart &Winston, 1968.

Ausubel, D. P.; ROBINSON, F. G.  School learning. An Introduction to Educational Psychology. New York: Holt, Rinehart & Winston, 1969.

HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

MERLEAU – PONTY, M. Fenomenologia da Percepção, São Paulo: Freitas Bastos, 1971 (Original em francês, 1945).

MOREIRA, M. A. Aprendizagem Significativa Crítica. São Leopoldo: Impressora Portão Ltda, 2005