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10/12/2018
Autor: Angela Hiluey
O Aprender Sobre o Atendimento ao Ser Humano
V CBP: Elcie F. Salzano Masini


V CONGRESSO BRASILEIRO PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO

          Psicologia, Direitos Sociais e Políticas Públicas: Avanços e Desafios

 

Tipo de atividade: Simpósio Ciência e Profissão

 

Nome do Coordenador: Angela Hiluey

Título do Simpósio Ciência e Profissão: Formação em Psicologia e Psicoterapia: Princípios e Metodologia

Eixo I: A psicologia e a superação das desigualdades no acesso e qualidade da formação em psicologia

Área: Processos Formativos de Psicólogos

Palavras chave (3): Psicologia; Ser humano; Psicoterapia; Significação própria

 

Nome do Autor 2: Elcie F. Salzano Masini

Instituição de origem Autor 2: FE-USP

Financiador do Autor 2: NA

 

Título da Fala do Autor 2: O Aprender Sobre o Atendimento ao Ser Humano

Resumo:

Identificamos – nos com aqueles que consideram a Psicologia e a Psicoterapia o campo das ciências humanas que visa à compreensão do homem (de sua natureza) e utiliza recursos para facilitar sua auto - compreensão, identidade e auto – realização, prevenindo desvios ou atrofias. A linha central está em propiciar seu desenvolvimento harmonioso e a consciência de seu próprio significado, no contexto onde age, avaliando o significado em relação ao seu desenvolvimento global. A proposta é a ação da Psicologia e da Psicoterapia para salvaguardar a identidade e significação própria do ser humano: estudo das condições para que adquira consciência de seu papel em um determinado lugar e momento, crença na própria significação e atue na convicção de que suas ações podem ter alguma influência. O Procedimento metodológico que auxiliaria os formadores de psicólogos e de psicoterapeutas a atingirem esses objetivos e qualidades necessárias em sua ação junto ao ser humano, com vistas a seu desenvolvimento integral é o implicado nas condições da Aprendizagem Totalizante – que envolve consideração à pessoa que aprende e às suas experiências para propiciar – lhe condições de compreensão do ensinado – imbrica conceitos da Teoria de Aprendizagem Significativa de Ausubel e do Aproximar – se, da Análise Existencial (Daseinsanalyse) de Heidegger, segundo Boss (Cf. 1976).

 

Esta comunicação busca aprofundar reflexões sobre o processo de aprendizagem do ser humano, e o uso de sua capacidade de compreender, elaborar e tomar decisões em situações pessoais e profissionais. Delineia-se a partir de convicções referentes ao sujeito no ato de aprender e às condições envolvidas nesse processo.

 

O ato de aprender

 

Denominação à ação do sujeito durante o seu processo de aprendizagem e a consciência que ele tem do que realiza.  A escolha do Ato de Aprender, como unidade de estudos, tem o propósito específico de investigar as condições necessárias para que o ser humano, em sua individualidade, adquira conhecimentos fazendo uso da percepção e da própria capacidade de elaboração, de forma espontânea e criativa.

O conhecimento das condições em que ocorre o Ato de Aprender implica o estudo do sujeito do conhecimento em sua individualidade, na complexidade das interações corporais, afetivas, cognitivas, individuais e coletivas, no tecido dos acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações e acasos que constituem o contexto social em que se situa.

O sujeito do conhecimento aqui concebido tem como característica fundamental a possibilidade de perceber, de atribuir significados e de estar aberto ao que está ao seu redor. A abertura - característica fundamental da natureza humana[1] – é entendida como a condição individual de dispor de muitas maneiras diversas  de se   relacionar  e selecionar aquilo para o qual se volta.  O perceber acontece na relação dessa possibilidade humana de estar aberto àquilo que a ele se mostra. Assim,  pela percepção humana as coisas ao redor sâo tematizadas, e pela compreensão as coisas podem ter significado no mundo de um ser humano. Essa união da percepção e da compreensão é que tornam possível ao sujeito, na sua individualidade, significar.

Este estudo está voltado para o compreender na experiência vivida, no deslocamento do referencial esquematizado e abstrato da aprendizagem e do risco da obtenção de informações fragmentadas e isoladas, para um processo dialético complexo da aprendizagem de cada pessoa no seu contexto de vida, em busca da integração de experiências e fundamentações teóricas.

 

Compreender

O verbo compreender (do latim compraehendere), no seu sentido etimológico em Português tem vários significados, de acordo com Houaiss (2009, p. 507):

 

conter em si, em sua natureza; estar ou ficar incluído; abranger(-se); estender a sua ação a; apreender (algo) intelectualmente, utilizando a capacidade de compreensão, de entendimento; perceber, atinar; fazer para si uma concepção ideal e pessoal de (determinada coisa ou pessoa).

 

Apontar qualquer um desses significados para definir de antemão um posicionamento sobre o tema em questão, seria uma simplificação inconsistente com a reflexão que esta comunicação propõe desenvolver.

 

Das áreas que investigam a compreensão: esboço de uma teoria cognitivista de aprendizagem

 

David Ausubel (Cf. 1963), na vertente cognitivista-construtivista, propôs a Teoria da Aprendizagem Verbal Significativa - uma explicação teórica do processo de aprendizagem. A preocupação do autor com a aprendizagem escolar, com as condições que propiciassem a quem aprende a compreensão do que lhe era ensinado, foi o fator desencadeante dessa teoria. Definiu, assim, aprendizagem significativa aquela em que a compreensão do novo conhecimento é adquirida e construída pelo aprendiz, por meio da interação com algum conhecimento prévio que ele dispõe.

Desvendar o que o aluno “já sabe” requer consideração à totalidade do ser cultural/social em suas manifestações e linguagens corporais, afetivas, cognitivas. Implica consciência do professor, sobre o processo relacional no qual ele próprio está contido como participante do mesmo contexto cultural e social em que se dá o ensino, submerso nos mesmos valores, linguagem e conceitos de seu aluno.

A complexidade do aprender e das imbricações do processo relacional em suas múltiplas dimensões psicológicas, sociais, culturais estão presentes e constituem o cenário no qual será focalizada a seguir a aprendizagem por compreensão e a aprendizagem por reflexão.

 

Aprendizagem por compreensão

A aprendizagem significativa de Ausubel é uma aprendizagem por compreensão. É aquela que:  

[...] caracteriza-se pela interação entre o novo conhecimento e o conhecimento prévio. Nesse processo, que é não-literal e não arbitrário, o novo conhecimento adquire significados para o aprendiz e o conhecimento prévio fica mais rico, mais diferenciado, mais elaborado em termos de significados, e adquire mais estabilidade (MOREIRA, 2005, p. 13).

De acordo com essa teoria, a estrutura de conhecimento do ser humano, denominada pelo autor estrutura cognitiva, é organizada e constituída de conceitos e proposições e propriedades representacionais das palavras. Se a estrutura cognitiva é organizada adequadamente, é mais fácil a aprendizagem e a retenção de um assunto novo. A disponibilidade e a clareza no uso das palavras (conceitos ou proposições) é que contribuem para a organização e elaboração das novas informações. Devido à importância da linguagem, o autor denominou sua teoria Aprendizagem Verbal Significativa.

O significado, segundo Ausubel, é um produto "fenomenológico", que surge no processo de aprendizagem quando o significado potencial, ou conteúdo de uma área de conhecimento, converte-se em conteúdo cognitivo, diferenciado para um determinado indivíduo.

Os cognitivistas têm compartilhado a crença de que uma pessoa em situações de educação formal ou não formal pode aprender por compreensão e adquirir significados, independente do ensino.  Da mesma forma, em situação de educação formal pode ocorrer a repetição de informações, sem que o aprendiz tenha desenvolvido aprendizagem significativa, ou compreendido o que foi ensinado.

Ausubel, insatisfeito com o ensino que não propiciava aos alunos o uso de seu potencial para compreender e adquirir novos significados, aprofundou estudos sobre o processo de aprendizagem. Buscou uma proposta que fizesse da escola o local apropriado para que conceitos e ideias fossem adquiridos por meio da capacidade humana de compreender.

Sua contribuição específica foi ter sistematizado recursos e princípios para estabelecimento de condições facilitadoras para ocorrência de aprendizagem por compreensão que, devidamente fundamentados, foram estruturados em sua Teoria da Aprendizagem Significativa.

 

Aprendizagem por reflexão

A aprendizagem por solução de problemas – ou por reflexão - na educação formal é parte integrante da Teoria de Aprendizagem Significativa. Constitui um processo mais complexo que o da aprendizagem de aquisição de conceitos e ideias, como afirmam Ausubel e Robinson (1969); traz implícita a ideia de um hiato entre o conhecimento que o estudante dispõe e o que tem que alcançar para a solução do problema. Quando a referência é a problemas em matemática, geografia e desenvolvimento social, ou outra disciplina, esse hiato pode ser preenchido pela retomada ou transformação das proposições conhecidas sob a orientação do padrão de regras na área de estudo. Nessas situações, a sequência bem definida pode resultar na solução do problema pela aplicação direta do conhecimento reorganizado a partir do padrão de regras, constituindo uma solução por repetição. Um verdadeiro problema, no entanto, não envolve uma sequência invariável de transformações e comporta sempre um elemento pessoal do solucionador, que responde a questões como as que seguem. A situação, ou tema, constitui um problema para ele? Quais os conhecimentos que entram em jogo? Qual a ordem que o solucionador estabelece para buscar a solução?

Se o estudante tiver domínio de conceitos e ideias relevantes sobre o tema poderá compreender a natureza e a questão central do problema. Se não tiver, terá que destrinchar os significados de cada conceito envolvido para depois compreender a proposição como um todo.

A compreensão da questão central é relevante porque propicia ao solucionador:

- definir o objetivo a ser atingido no processo de solução do problema;

- definir a própria posição com relação ao problema e as bases iniciais    sobre as quais o raciocínio se constituirá;

- propicia perceber o hiato entre seu conhecimento e o conhecimento requerido para a solução do problema.

Quanto mais eficientemente o solucionador do problema definir esses três itens, mais condições terá para o estabelecimento de suas próprias estratégias, para um processo contínuo de verificação de seus passos e questionamentos, até alcançar o encaminhamento para a solução do problema; o que ampliará sua compreensão na área de estudos em que se localiza o problema.

Ausubel faz referência à incompletude encontrada nas investigações sobre a aplicabilidade da aprendizagem de solução de problemas à vida real; sobre os limites da aplicabilidade desses processos racionais a genuínos problemas em particular. Sugere como explicação possível a ocorrência de uma transferência negativa: a experiência de solucionar problemas em matemática, levou o solucionador a uma intolerância à ambiguidade e uma valorização excessiva de asserções lógicas, o que o limitou nas experiências mais amplas de solução de problemas.

São citados a seguir alguns fatores que influenciam positivamente a solução de problemas: compreensão da direção e decisão na escolha dos pontos a atacar; focalizar o problema a ser resolvido e não aspectos irrelevantes; clareza nas implicações e aplicabilidade de seus conhecimentos; processo ativo de pesquisa e compreensão do problema; seguir uma linha persistente de raciocínio para chegar a conclusões lógicas; autoconfiança nas próprias habilidades e sem desencorajado pela complexidade[2].

Sintetizando o que ficou exposto pode-se dizer que a aprendizagem de solução de problemas é caracterizada pela reflexão, isto é pelo pensar, relacionar conceitos, princípios e informações. Para ocorrência de aprendizagem de solução de problemas é necessário que: o problema exista para o aluno e tenha significado para ele; o aluno tenha disposição para querer solucionar o problema. A aprendizagem por reflexão requer que o aprendiz: domine os conceitos com os quais irá trabalhar para a solução do problema; analise se entendeu a natureza do problema e se possui material necessário para trabalhá-lo. Por parte do professor é necessário que seja orientado a usar os erros do aprendiz para reavaliar os passos dados para a solução do problema; que sejam oferecidos exercícios que o desafiem em termos de um obstáculo a ser removido, porém sem frustrá-lo.

 

Comentários Finais

Esta comunicação buscou aprofundar reflexões sobre o processo de aprendizagem do ser humano, e o uso de sua capacidade de compreender, elaborar e tomar decisões em situações pessoais e profissionais, tendo como linha diretriz a concepção de Bakhtin de que a compreensão plena é fruto do diálogo.

Os dados de pesquisas sobre o uso da reflexão em situações mais amplas de contextos de vida[3], não mostraram que a aprendizagem de solução de problemas na escola havia auxiliado a solução de problemas do cotidiano. Os autores levantaram hipóteses a respeito propondo novas perguntas em busca de uma compreensão mais ampla sobre o uso da capacidade de compreensão e reflexão nos problemas da vida diária.

 

Referências

Ausubel, D. P. The psychology of meaningful verbal learning: An Introduction do School learning. New York: Grune and Stratton, 1963.

Ausubel, D.P.  Educational psychology: A cognitive view. New York: Holt, Rinehart &Winston, 1968.

Ausubel, D. P.; ROBINSON, F. G.  School learning. An Introduction to Educational  Psychology. New York: Holt, Rinehart & Winston, 1969.

BAKHTIN, M. A estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

CYTRYNOWICZ, D. Psicoterapia uma aproximação Daseinsanalítica. Daseinsanalyse, 1978, n. 4, p. 27-48.

HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

MOREIRA, M. A. Aprendizagem Significativa Crítica. São Leopoldo: Impressora Portão Ltda, 2005                                  

NUNES JUNIOR, A. T. A pré-compreensão e a compreensão na experiência hermenêutica. Jus Navigandi, Teresina, ago. 2002. Disponível em: . Acesso em: 18 fev. 2009.

SEVERINO, A. J.  Filosofia. (Coleção Magistério. Série formação geral). 2. ed. São Paulo: Cortez, 2007. ISBN 978-85-249-0410-3.



[1] Adota-se aqui o sertido  de abertura de Heidegger, como a define Cytrynowicz (1978, p.16): “Se ha algo que é essencialmente da natureza humana é a abertura. É para isso que Martin Heidegger nos chama a atenção em sua ontologia fundamental. O homem é essencialmente ser-aberto diante do que vem a seu encontro”.

 

[2] Cf. Ausubel e Robinson, 1969.

[3] Cf. Ausubel e Robinson, 1969.