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22/02/2020
Autor: Luana Silva de Lima
LUTO POR EMERGÊNCIAS E DESASTRES - Elaine Gomes dos Reis Alves

LUTO POR EMERGÊNCIAS E DESASTRES.


Elaine Gomes dos Reis Alves

Psicóloga e Docente; Pós-Doutorado e Doutorado pelo Instituto de Psicologia USP; Mestre em Bioética e Especialista em Perdas, Morte, Luto, Emergências e Desastres; Pesquisadora do Laboratório de Estudos Sobre a Morte do Instituto de Psicologia USP; Membro do Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres da USP (CEPED-USP); Fundadora da Prestar Cuidados em Psicologia; Coordenadora do NIPED – Núcleo de Intervenções Psicológicas em Emergências e Desastres. Formada em Gestão de Risco e Desastres pela OIT/ONU, Turim, Itália. Contato: elainegralves@gmail.com

 

Eu consigo lembrar, mas é muito ruim ficar lembrando disso, é muito triste. Eu estava em casa com meu esposo, minha irmã e meu filhinho. Na hora que eu escutei o barulho, já não tinha tempo de fazer mais nada. Na hora que eu me dei por si, eu já estava ali naquele desastre [...]. É muito difícil porque eu ainda não sei o que vou fazer daqui pra frente. Meu filho ainda está desaparecido, minha irmã também e eu perdi meu esposo. [...], a única coisa que eu queria era a minha família do meu lado. Direito nenhum vai trazer eles de volta. [...] A mineradora não entrou em contato com a gente até hoje pra perguntar o que a gente tá precisando, é muito difícil. [...] Queria que se alguém soubesse do filho e da minha irmã, que entrasse em contato com a gente, porque a Vale não está deixando os hospitais identificar as pessoas que estão lá”. (Paloma Prates, afetada pela tragédia de Brumadinho/MG, em 25/01/2019)1

 

            Inicio este texto com a fala de Paloma Prates1, na tentativa de ressaltar o sofrimento por perdas em situações de Emergências e Desastres (E&D) – na maioria das vezes evitáveis - e sua queixa pela falta de acolhimento. O primeiro, o mais básico e simples dos cuidados: perguntar se está precisando de alguma coisa e passar o máximo possível de informação aos familiares e afetados diretos. Ou seja, cuidar e acolher pessoas que passam por situações extremas em suas necessidades físicas e psíquicas e, principalmente, voltar-se para ações preventivas a fim de evitar perdas desnecessárias. Paloma Prates é uma das vozes que gritam e, ao mesmo tempo, sussurram, entre as inúmeras vítimas de desastres.

            No momento da notícia da tragédia em massa e durante o evento surgem várias necessidades, dificuldades e entraves que prejudicam ações profícuas em salvamentos, resgates e atenção às necessidades das vítimas diretas.

            Desastres, calamidades, catástrofes e/ou tragédias necessitam de cuidado diferenciado, com estratégias e infraestrutura abrangente e coesa em todo um país e entre os países. O local e a magnitude do evento, a intensidade dos danos e prejuízos, a necessidade urgente de conhecimentos e equipamentos específicos somadas ao grau de vulnerabilidade do ambiente afetado, pode necessitar de ajuda entre estados, como as secas e enchentes no Brasil, ou entre países (ajuda internacional), como tsunamis, terremotos, epidemias etc. e, porque não secas e enchentes do Brasil?

            De acordo com o Marco de Sendai para Redução do Risco de Desastre 2015-20302, entre 2005 e 2015, mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo foram afetadas por desastres. Aproximadamente 23 milhões ficaram desabrigadas, mais de 700 mil pessoas perderam a vida e mais de 1,4 milhão ficaram feridas. A perda econômica corresponde a mais de US$ 1,3 trilhão.

Os desastres brasileiros estão ligados principalmente à falta ou ao excesso de água: seca, enxurradas, alagamentos, deslizamentos e inundações. Talvez por fazer parte da paisagem nacional, apesar do mal que causam, nos acostumamos com esses incidentes, que se tornaram rotineiros e sem valia. Finalmente, estamos percebendo a gama de consequências causadas por eles e a necessidade de interferência para a Redução de Riscos e Desastres (RRD).

            Desde 2018, a UNISDR3 conceitua Desastre como:

Uma perturbação grave do funcionamento de uma comunidade ou sociedade em qualquer escala devido a eventos perigosos que interagem com condições de exposição, vulnerabilidade e capacidade, levando a um ou mais dos seguintes: perdas e impactos humanos, materiais, econômicos e ambientais. Anotações: O efeito do desastre pode ser imediato e localizado, mas geralmente é generalizado e pode durar um longo período de tempo. O efeito pode testar ou exceder a capacidade de uma comunidade ou sociedade de lidar com seus próprios recursos e, portanto, pode exigir assistência de fontes externas, que podem incluir jurisdições vizinhas ou em nível nacional ou internacional.

 

Enquanto Emergência:

Usada de forma intercambiável com o termo desastre, como, por exemplo, no contexto de riscos biológicos e tecnológicos ou emergências de saúde, que, no entanto, também podem estar relacionados a eventos perigosos que não resultam em séria perturbação do funcionamento de uma comunidade ou sociedade.

 

            Eventos de grande magnitude costumam ser altamente destrutivos, resultando em muitas mortes e várias pessoas feridas, além de avarias importantes no local do desastre. Trata-se de um acontecimento de caráter dramático, sinistro e funesto, capaz de despertar lástima, piedade e terror, com consequências danosas para além das pessoas e do local atingido. Geralmente, há desproporção entre os recursos disponíveis e aqueles que são necessários para resolução do problema.

            A principal característica do desastre é comprometer a vida e/ou a integridade física de vários indivíduos, com intensas alterações nas pessoas, nos bens, serviços e meio-ambiente, que excedem a capacidade de resposta da comunidade afetada.

Para a psicologia, o conceito de desastre depende da perspectiva daquele que o nomeia e do lugar que ele ocupa nessa interação com o incidente. Trata-se de uma ruptura do funcionamento habitual de um sistema ou comunidade, que impacta o bem-estar físico, social, psíquico, econômico e ambiental de determinada localidade4.

 A Morte Escancarada

Desastres carregam consigo o retrato da “morte escancarada5, definição para a morte inesperada, repentina, violenta, pública e sempre traumática. Penetra na vida das pessoas e provoca alterações significativas, excede a capacidade de resposta de indivíduos, famílias e comunidades e dificulta a proteção e o controle de suas consequências. Pessoas ficam expostas e indefesas. Ela provoca o choque que desestabiliza e dificulta o processo de luto e pode promover o luto complicado.

Na morte escancarada pode haver desfiguração, mutilação, ausência de corpo ou apenas parte dele. Torna-se um evento público com muitas pessoas envolvidas (vítimas, familiares, comunidade, socorristas), inclusive a mídia. Há exposição das pessoas e suas histórias tornam-se objetos de comentários, críticas e julgamentos6.

É possível pensar em três tipos de morte escancarada: 1) acidentes em massa; 2) a morte violenta das ruas, como acidentes e crimes; 3) a morte veiculada pelos órgãos de comunicação, principalmente a TV.

A morte é escancarada porque acontece nas ruas, de maneira brutal e é presenciada por qualquer pessoa, inclusive crianças. Também é escancarada porque, se não presenciada, a mídia de uma forma ou outra, leva essa morte até os cidadãos. Leva pessoas absolutamente distantes do fato a se envolver e até sofrer, mesmo que pessoas e comunidades envolvidas sejam totalmente desconhecidas.

As imagens e depoimentos trazidos pela TV, muitas vezes superficialmente, têm a força de despertar os mais variados sentimentos, porém, sem possibilidade de reflexão e elaboração. Mostrar cenas trágicas e imediatamente cortá-las com comerciais ou outras amenidades banaliza a morte e passa a mensagem de “vai ficar tudo bem”, nublando o verdadeiro significado da morte.

A morte é um tema interdito e, por não se poder falar dela, se transforma em espetáculo. A morte vende, e muito! Quanto mais requintes de crueldade, ou quanto maior a tragédia, mais cara ela é. O fascínio em relação a morte e a necessidade de consumo dela são observados no aumento do índice de audiência quando o tema é presente. Esse consumo acontece devido a necessidade de entender o fenômeno da morte, a última fase do desenvolvimento humano.

Um dos problemas da morte escancarada pela mídia é a sensação de distanciamento do fato. O assistente não percebe a possibilidade de aquele tipo de evento, ou outro, acontecer com ele. A expressão “Pode acontecer com qualquer um”, não costuma nos incluir.

Eu estava na fila do caixa do supermercado quando meu irmão ligou dizendo que o avião estava desaparecido. Na hora que larguei meu carrinho lá, cheio de compras, naquela hora eu deixei de ser uma pessoa comum. Desde então, quem volta para casa, não é a mesma pessoa que saiu para ir ao supermercado. Quando ia imaginar que eu estaria num quarto de hotel, esperando notícias sobre o corpo do meu irmão. (Depoimento de parente de vítima de acidente aéreo. Psicologia em Emergências. Coordenadoria Regional de Defesa Civil. São Paulo: Campinas, 2007).

Alguns desastres são previsíveis, como as enchentes no Brasil, terremotos e furacões em outros países e possibilitam ações preventivas. No caos, frente aos diversos tipos de perdas e aos consequentes sentimentos e comportamentos das pessoas, a intervenção deve ser imediata.

Desastres exigem intervenções especializadas!

Perdas: Morte Simbólica ou Morte em Vida

            Muitas perdas estão associadas a morte. Elas rompem um vínculo tão forte que deflagram o luto, porém, nem sempre essa dor é autorizada por ser considerada “menor”, pois não houve morte de pessoa querida.

            Em trabalho anterior7 conceituei três tipos de morte em vida:

·           Morte do Filho Idealizado – Crianças que nascem portadoras de qualquer condição diferente da esperada (deficiências físicas, mentais, doenças etc.), ou adquirem uma deficiência após um evento traumático.

·           Morte de Si Mesmo em Vida – Fatos que obrigam a pessoa mudar os caminhos planejados e reestruturar sua vida em função de sua nova condição: Falências, perda de emprego ou aposentadoria; separações; diagnóstico de doenças crônicas; doenças estigmatizadas (aids, psiquiátricas etc.); doenças graves e/ou terminais; mutilações provocadas por doenças; mutilações/deformidades provocadas por tragédias; perda de filho.

·           Morte Sublimada em Vida – Furtos (carros, residências, bolsas etc.); perda de roupas, móveis e utensílios em tragédias; perda de fotografias, livros; morte de animais de estimação; perda de veículos de transporte; perda da casa.

São inúmeras as perdas decorrentes de desastres, que podem ser individuais e coletivas (sociais). Em desastres é possível encontrar a morte concreta e/ou a morte de si mesmo em vida (mutilações/deformidades adquiridas). Além de pessoas queridas é possível perder tudo aquilo que foi conquistado durante toda a vida. A perda pode ser única, múltipla ou total. Também se perde a identidade, a dignidade, a confiança e a segurança.

Quando alguém sobrevive a um trauma em que a vida esteve em risco, é comum, na tentativa de diminuir o sofrimento, a desvalorização e a banalização da perda (“o importante é estar vivo”; “você não perdeu ninguém, só coisas”). Tais atitudes dificultam o pesar (experiência de tristeza profunda ou violenta) e o processo de luto (a expressão dessa tristeza).

            Em situações de desastres, devido ao choque, a pessoa perde as defesas comuns, como se todos os mecanismos para enfrentar dificuldades que foram aprendidos ao longo da vida, não servissem mais. A falta de controle sobre a situação e sobre si mesma traz a sensação de impotência

Perdas múltiplas e simultâneas são mais traumáticas e podem minar as redes de apoio necessárias e de confiança da população afetada8. Por outro lado, quem oferece apoio, também pode estar em risco. As características do desastre, sua intensidade e alcance influenciam o dano psicossocial e o tipo de resposta necessária.

            Importante esclarecer que em situações trágicas, no aspecto psicológico, não existe dor maior ou menor, mais ou menos importante (diferente de necessidades médicas). A mesma atenção e cuidado devem ser dispensados às pessoas que perderam entes queridos, animais de estimação, casas ou álbuns de fotografias. Todos precisam ter sua perda, dor e sofrimento reconhecidos, validados, valorizados e cuidados.

            Julgamentos e críticas só atrapalham nesse momento. As pessoas envolvidas perdem a referência, os sentidos, não sabem o que fazer e fazem qualquer coisa, ou não conseguem fazer nada.

            Luto

            O luto corresponde a um dolorido processo de elaboração da perda e, embora provoque afastamentos das atividades cotidianas, a princípio, não se propõe a necessidade de tratamento médico. Trata-se de um processo individual normal, importante, necessário, saudável e extremamente difícil e dolorido. O luto é a fase mais difícil pela qual o ser humano irá passar em toda sua existência8 e, que envolve uma sucessão de quadros clínicos que se mesclam e se substituem. Suprimir a dor poderá prolongar esse processo de aprendizagem.

Alguns autores citam fases observadas durante o processo de luto8,9,10,11, porém, é importante ressaltar que não existe uma sequência exata e nem todas as pessoas passam por todas as fases. O luto é individual e cada um passa por ele à sua maneira e ao seu tempo.

Não existe um período de tempo estipulado como “normal” para o luto, cada pessoa, de acordo com seu vínculo com quem ou aquilo que foi perdido, necessita de seu tempo interno para elaborar a própria perda. Muitas pessoas pensam que o luto normal dura um ou dois anos, o que não é verdade. No primeiro ano após a morte de um ente querido, todos os eventos ou fases são uma novidade difícil de ser enfrentada: Natal, aniversários e datas especiais para a pessoa enlutada ligadas àquela falecida são desconhecidos e até assustadores. Ao completar um ano da morte, apenas se fecha esse ciclo de datas já vividas sem a pessoa, não é mais estranho. Não significa necessariamente que diminuiu a dor, ou o fim do processo de luto.

Completar um ano da morte também é muito dolorido. O indivíduo enlutado quer muito segurar o último dia que esteve com o ente querido que morreu e, a cada dia que passa, fica mais distante desse último dia. Um ano significa que, mesmo parecendo que foi ontem, já faz muito tempo que a pessoa morreu e há a tomada de consciência de que o “último dia” ficará cada vez mais longe. O aniversário de um ano costuma resgatar os mesmos sentimentos do dia da morte, por isso a importância de rituais fechando esse ciclo.

            Considera-se o término do processo de luto quando a pessoa enlutada aprende a viver sem a pessoa que morreu.  Antes, porém, o enlutado passa do entorpecimento à dor profunda e se faz necessária a compreensão de que esse processo é natural e absolutamente necessário. A saudade aumenta, mas a pessoa volta a fazer planos e empreende projetos que não mais incluem quem morreu.

            Pessoas enlutadas têm necessidade de falar várias vezes, tanto de quem morreu, quanto como morreu. É preciso respeitar esse momento e estar sempre próximo de quem está entrando em contato com a perda. No luto é normal:

Ø    Crises de choro, não controlar as lágrimas;

Ø    Perda de apetite;

Ø    Insônia, ou dormir demais;

Ø    Desejo de ficar só;

Ø    Sentir-se anestesiado, com sensação de que não é verdade, estar sonhando;

Ø    Dor (buraco/aperto) no peito;

Ø    Sentir raiva e buscar um culpado;

Ø    Ficar deitado, não querer se levantar, não ter vontade de fazer nada;

Ø    Pensamentos recorrentes, procura pela pessoa;

Ø    Desejo de ir junto com quem morreu;

Ø    Necessidade de falar;

Ø    Manter a pessoa viva, imaginar que conversa com ela, desejo de trazer de volta;

Ø    Sentimento de solidão.

            O processo acima citado corresponde ao luto normal. Quando isso não ocorre, pode ocorrer o “Luto Complicado” (Não se utiliza mais o termo “luto patológico”).

            A morte traumática, que ocorre em situações de E&D, propicia o “luto complicado” e, por isso, a importância de intervenções psicológicas imediatas. Desde a negação da morte e outras perdas, até a impossibilidade de adequação à nova realidade, a intensidade de sofrimento do indivíduo pode levar diversos tipos de adoecimento mental, inclusive depressão e suicídio.

            Além de todas as perdas, contribuem com o aumento do sofrimento, o abandono e o descaso por parte do poder público e dos responsáveis pelo evento, bem como, a invasão descuidada da mídia que expõe as pessoas afetadas e, muitos da sociedade em geral, que acusam as próprias vítimas e os afetados pelo desastre.

OBS.: A ausência de corpo e de rituais de despedida (velório) pode contribuir para o luto complicado.

Condições que Favorecem o Luto Complicado

A resistência à mudança e a relutância em abrir mão da pessoa são as bases do luto8. De modo geral, morte violenta, abrupta, repentina e, principalmente, de crianças e jovens, extrapola a condição de compreensão, representando risco para a saúde mental, uma vez que se torna mais difícil abrir mão da pessoa.

Sempre que se perde alguém querido há necessidade de encontrar um sentido para aquela morte, para que ela possa, no mínimo, ser compreendida e quanto maior a violência, mais difícil se torna essa compreensão.

Desastres e perdas múltiplas são capazes de minar as redes de apoio e aumentar a vulnerabilidade do indivíduo. A exposição à mídia; informações deturpadas e boatos, a devassa à privacidade da pessoa e sua família, a mistura de sentimentos e a falta de tempo para compreender os fatos também podem atrapalhar.

Os eventos que aumentam a sensação de vulnerabilidade e perda da confiança no futuro favorecem o luto complicado. Estes geram sentimento de impotência e de incompetência e aumentam a sensação de desamparo. O choque e a descrença dificultam o contato com a nova realidade e podem levar ao “entorpecimento”.

São complicadores:

Ø Perdas múltiplas;

Ø Tipo de morte e exposição à mídia, principalmente em caso de morte estigmatizada, ou causa de vergonha;

Ø Segredos relativos à morte ou a sua causa. Ex.: césio, questões políticas;

Ø Grande número de pessoas envolvidas;

Ø Número insuficiente de cuidadores;

Ø Falta de suporte;

Ø Profissionais de socorro e saúde envolvidos no acidente;

Ø Corpos mutilados e/ou desfigurados;

Ø Ausência de corpo;

Ø Dificuldade na condução dos rituais: velório, enterro, outros.

            Desastres demandam atenção e cuidados de todas as áreas de conhecimento que levem em conta suas características particulares e, em termos de prevenção e enfrentamento, a comunidade afetada. Tragédias podem provocar sensações, sentimentos e emoções como: impotência, horror, dor, medo, pânico, angustia, ansiedade, contato com a própria morte e de outros e questionamento de valores e crenças12. Assim, ressalta-se a importância da continuidade de acompanhamento de afetados diretos e familiares, que precisam de:

Ø    Apoio e orientação para restaurar a rotina diária;

Ø    Orientações para evitar tomadas de decisões drásticas (demissão, mudança de residência etc.);

Ø    Esclarecimentos sobre sintomas físicos e psíquicos esperados;

Ø    Avaliar junto com a pessoa quais suportes oferecidos podem ou não ser suspensos e como;

Ø    Encaminhamentos, quando necessário, para atendimentos especializados;

Ø    Favorecer rede de apoio familiar, social e profissional;

Ø    Favorecer vínculos agregadores, contatos sociais;

Ø    Atenção às necessidades pessoais e materiais;

Ø    Identificação de fatores de risco;

Ø    Observar e acompanhar crianças em casa e na escola

Ø    Favorecer maior qualidade de vida, dentro do possível nas condições em que se encontram.

É importante estimular, apoiar e favorecer a formação de grupos de encontros entre vítimas de tragédias. Tais encontros são altamente significativos e saudáveis, pois propiciam apoio mútuo entre pessoas que sofrem pelo mesmo motivo e podem, juntas, elaborar rituais, homenagens e, também, buscar direitos. Tais encontros favorecem o luto coletivo, uma vez que todos sofrem pelo mesmo motivo e, entre eles, é autorizado falar sobre quem e o que foi perdido e a expressão de sentimentos distintos, como raiva, amor, saudade, choro intenso entre outros. Ao mesmo tempo, as pessoas se consolam entre si e se fortalecem. O luto coletivo favorece a elaboração do processo do luto

Desastres diferem de outros traumas e exigem apoio diferenciado daquele oferecido em situações de perda e estresse. A experiência do evento e suas consequências são influenciadas pela personalidade do indivíduo, dos estressores já vividos, recursos de enfrentamento, recursos de apoio e capacidade de adaptação. Pode inclusive, trazer mudanças positivas.

Uma tragédia repercute sobre toda comunidade atingida e provoca uma mudança aguda, para a qual, muitas vezes, não estava preparada.

Não há imunidade para um desastre. Pessoas que passam por isso têm suas vidas profundamente alteradas, perdem a ilusão de segurança (acontece comigo!), podem ressignificar valores e objetivos de vida. A maioria se recupera do trauma e podem tornar-se mais fortes, sensíveis e engajar em alguma causa.

Os cuidadores e/ou socorristas têm responsabilidades como: saber da importância de ser treinado; saber responder a situações e/ou pessoas e, principalmente, saber dar e pedir apoio.

Para a recuperação da crise são importantes ações/atitudes como: Apoio; Informação apropriada; Encontros de sobreviventes; Comunicações entre sobreviventes.

Após experiências traumáticas é comum que a pessoa sinta: Medo, ansiedade, desorientação, luto, dissociação, confusão, tristeza, dor, falta de vontade e habilidade para se cuidar entre outros sintomas.

Quando se deseja apoiar, mas não se está preparado é grande o risco de ser inadequado e também de adoecer. Há necessidade de saber o que fazer e o que não fazer.

Finalmente, é importante estar consciente de que as experiências de trauma são pessoais, individuais, únicas, subjetivas e singulares, portanto, jamais será igual de uma pessoa para outra

Estou com a memória repleta de biografias de mulheres que um dia saíram de suas casas e tiveram amputado seu direito, dito universal, de ser humana. Estou recheada de seres que tiveram seu acesso à liberdade negado, gente que ficou três, quatro, cinco meses ou anos sequestrada dentro da selva congolesa. Gente que teve seu corpo escravizado em um passado recente e que mantém os pensamentos em uma prisão sem amarras; gente que esqueceu como é ser humano. 12.

 

REFERÊNCIAS

1.    Estado de Minas Gerais. 2019. Vítima de tragédia em Brumadinho resgatada por corda fala pela primeira vez. Entrevista concedida para o programa Mais Você, de United Nations Office for Disaster Risk Reduction. https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2019/02/01/interna_gerais,1026846/vitima-de-tragedia-em-brumadinho-resgatada-por-corda-fala-primeira-vez.shtml  Acesso em: 05/09/2019.

2.    UNISDR United Nations Office for Disaster Risk Reduction. Marco de Sendai para a redução de risco de Desastre 2015-2030. UNISDR/ONU. Disponível em:

http://www1.udesc.br/arquivos/id_submenu/1398/traduzido_unisdr___novo_sendai_framework_for_disaster_risk_reduction_2015_2030__portugues__versao_31mai2015.pdf  Acesso em: 03/08/2019

3.    UNISDR United Nations Office for Disaster Risk Reduction. Conferência Ministerial Asiática de 2018 sobre Redução do Risco de Desastre.Ulaanbaatar, Mongólia, 3 a 6 de julho de 2018. Disponível em: https://www.unisdr.org/we/inform/terminology  Acesso em: 01/07/2019.

4.    Franco, M. H. P. “Psicologia e gestão integral de riscos e desastres”. Comunicação Oral. In: Oficina Regional sobre Psicologia na Gestão Integral de Riscos e Desastres. Santo André: CRP-SP/CFP, 9 mar. 2016.

5.    Kovács, M.J. (2003). Educação para a morte: temas e reflexões.  São Paulo: Casa do Psicólogo: Fapesp.

6.    Alves, E.G.R. (2010). Desastres coletivos: perda, morte e luto. In: Santos, F.S. (Org.). A arte de morrer: visões plurais, vol. 3. Bragança Paulista,SP: Editora Comenius, p. 282-304.

7.    Alves, E.G.R. (2008). Deformidade Facial: Mutilações e o processo de luto pela identidade perdida. In: Kovács, M.J. (Coord.). Morte e existência humana: caminhos de cuidados e possibilidades de intervenção. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. (Fundamentos de Psicologia), p. 126-147.

8.    Parkes, C.M. (1998). Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. São Paulo: Summus. (Coleção novas buscas em psicoterapia; v. 56).

9.    Bowlby, J. (1998). Perdas: tristeza e depressão. (Trilogia Apego e Perda, v. 3). 2ª. Ed. São Paulo: Martins Fontes.

10. Kübler-Ross, E. (2000).  Sobre a morte e o morrer. 8ª. Ed. São Paulo: Martins Fontes.

11. Franco, M.H.P. (org.). (2002). Estudos Avançados Sobre o Luto. Campinas: Livro Pleno.

12. Noal, D. 2017. O Humano do Mundo: diário de uma psicóloga sem fronteiras. Bauru/SP: Alto Astral, p. 141.