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03/06/2020
Autor: Luana Silva de Lima
Nascimento na Pandemia do Covid-19: gestação, parto e primeiros dias - Rita Sanchez

Nascimento na Pandemia do Covid-19: gestação, parto e primeiros dias


Dra. Rita Sanchez

Coord. Programa Parto Adequado Einstein

Coord. Materno - Infantil - Medicina Fetal Einstein

 


Neste momento de Pandemia todas as pessoas de São Paulo se recolhem em suas casas, o lugar mais seguro! Passadas uma ou duas semanas de quarentena e as dúvidas começam a surgir. A gestante tem medo de adquirir o Coronavírus e passar para o bebê dentro da sua barriga. O médico, obstetra, preocupado que ela pode estar desenvolvendo uma doença gestacional grave, como pré-eclâmpsia ou diabetes gestacional, não se sente seguro de cancelar as consultas pré-natais. Mas a gestante não quer sair de casa. As notícias mostram algumas pessoas morrendo em casa por falta de tratamento, e o dilema aumenta. A telemedicina, antes tão discutida, é aprovada para utilização no momento de crise. As pacientes podem ser orientadas, mas nem sempre examinadas ou tratadas. De início, o Ministério da Saúde não considera que gestantes tenham um risco maior se contraírem a doença, mas passadas as semanas, libera nota técnica onde estabelece que as gestantes são população de risco. A preocupação entre os obstetras e as próprias pacientes aumentam. Orienta-se diminuir o número de consultas ao mínimo (6 consultas em 9 meses), e as gestantes comparecem aos consultórios e Unidades Básicas de Saúde preocupadíssimas se irão adquirir a doença. Muitas se recusam a vir. A literatura mostra que não se observou até agora malformações fetais pelo Coronavírus, mas tudo ainda é incerto, pois ainda temos apenas 5 meses decorridos de pandemia. Portanto, as pacientes que tiveram a doença nos primeiros 3 meses, ainda não chegaram no final da gestação. 

Os hospitais e maternidades se preparam para receber as gestantes, separando alas, andares, montam os fluxos de atendimento para não cruzar pacientes que sejam Covid +, com as negativas. A preocupação durante o parto e internação é tripla: com a paciente positiva que precisa ser bem vigiada clinicamente, tem que dar conta do Trabalho de parto e parto, com o recém-nascido (RN) que não se contaminou intra-útero (até agora), e não poderá se contaminar quando for para o colo da mãe, e com os colaboradores que estão assistindo ao parto, pois o hospital não pode perder sua "força de trabalho". 

Na ultima década muito se falou sobre humanização no parto, das vantagens do parto normal, do contato pele a pele mãe-bebê, da amamentação na primeira hora de vida. As cesáreas desnecessárias e a violência obstétrica foram combatidas, e muitos projetos de promoção do parto vaginal apareceram. No Brasil o Projeto Parto Adequado surgiu em 2015, uma parceria entre ANS (Associação Nacional de Saúde Suplementar), Hospital Israelita Albert Einstein e o Institute for Healthcare Improvement, para implantar melhorias na prática obstétrica, visando ouvir mais as gestantes, respeitar seu plano de parto, permitir o trabalho de parto e parto vaginal, o contato pele a pele, a amamentação na primeira hora de vida. Continuamos o programa, acompanhando os hospitais nas mudanças para a segurança de mães e bebês, mas também os orientando muito como proceder nesse momento. 

Durante essa pandemia, as incertezas são grandes, e o "medo" acomete a todos. Será que o vírus passa no leite Materno? Será que o contato pele a pele vai contaminar o RN? Visando a proteção de todos, e tendo em mente que a transmissão se dá por aerossóis e gotículas,  os hospitais instituíram o fluxo de logo após o nascimento  proceder ao clampeamento oportuno do cordão (cortar o cordão precocemente)  realizar o banho e exame do RN, e só  após higienização da mãe (troca de máscara, camisola, higiene das mãos), ela poderá receber seu filho nos braços. A permanência de apenas 1 acompanhante que também deve se proteger com máscara, óculos e avental, foi determinada. No puerpério, recomendações como a paciente higienizar as mãos, usar máscara durante a amamentação e manter o distanciamento do berço do RN em cerca de 2 metros da cama da mãe são necessárias para a proteção deste. Caso este nasça prematuro, a mãe positiva não poderá entrar na UTI Neonatal, outro acompanhante que esteja sempre assintomático deverá permanecer no lugar dela. Essas questões trazem um stress às mães, que estão distanciadas de seus bebês. Ao mesmo tempo, a culpa que  se instalará caso ela contamine seu filho é grande. Mesmo prestando atenção em toda a parte médica, mantendo-se as precauções e distanciamento, não podemos perder na qualidade do atendimento, na humanização, no carinho, para com as pacientes.  Além disso, estamos orientando, sempre que possível, acompanhamento psicológico a todas, principalmente na fase do puerpério.