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03/06/2020
Autor: Luana Silva de Lima
COVID-19: os recursos psíquicos e a saúde mental - Dra. Marluce Muniz de Souza Pedro

COVID-19: os recursos psíquicos e a saúde mental


DRA. MARLUCE MUNIZ DE SOUZA PEDRO

Médica psiquiatra, psicanalista e terapeuta familiar sistêmica


     Esse processo vem de encontro à realidade vivida por cada um de nós desde o início da pandemia da Covid-19, que tirou da zona de conforto a sociedade dos cinco continentes do planeta.
      Recomendações de que o público em geral, mesmo aqueles sem sintomas, deveria começar a usar coberturas de rosto em locais públicos, onde as medidas de distanciamento social são difíceis de manter, a fim de diminuir a propagação do COVID-19.
- O isolamento social horizontal e outras intervenções (p.e. auto isolamento doméstico, higienização pessoal e de objetos, fechamento de escolas e empresas). 
- As políticas que podem ser necessárias por longos períodos para evitar a transmissão viral rebote. 

Tudo isto pode desencadear perturbações emocionais que consequentemente levam ao adoecimento mental, além da COVID-19.


Desastres afetam desproporcionalmente populações pobres e vulneráveis, e pacientes com doenças mentais graves podem estar entre os mais atingidos por apresentarem toda uma gama de vulnerabilidade, como:

- altas taxas de tabagismo

- doenças cardiovasculares,  pulmonares e metabólicas
- pobreza e falta de moradia 


De fato, as estimativas mostram que 25% da população de rua dos EUA tem uma doença mental grave

É preciso ficar de olho nesses círculos sobrepostos de populações vulneráveis:

- pessoas com deficiência em geral 
- pessoas com doenças mentais graves em particular
- pessoas que são pobres
- pessoas que têm redes sociais limitadas"

A maioria dos estudos revisados ​​relatou efeitos psicológicos negativos, incluindo sintomas de estresse pós-traumático, confusão e raiva. Para alguns pesquisadores com efeitos duradouros. 
- Os estressores incluíram maior duração da quarentena, medos de infecção, frustração, tédio, suprimentos inadequados, informações inadequadas, perda financeira e estigma
-  Crianças e adolescentes estão particularmente em risco de transtorno de estresse pós-traumático. 
- Os médicos na linha de frente, deste período sem precedentes, relatam não ter o equipamento de proteção adequado e se preocupar com a possibilidade de expor suas famílias ao COVID-19.


FATORES ESTRESSORES:

- Perspectiva de não saber quanto tempo tudo isso vai durar faz sofrer mais, acarretando  incerteza que toma forma de ansiedade, angústia e medo antecipado
- Medo dos efeitos devastadores de uma doença respiratória aguda que se espalha a passos rápidos e os efeitos potenciais da desaceleração econômica na economia mundial.
- O medo da doença está dominando o mundo. Com doenças invisíveis, isso não é irracional. Se você não sabe se está exposto e / ou espalhando para colegas de trabalho, filhos ou pais idosos, o medo do contágio é lógico. 
- Medo da morte: ouvimos histórias sobre a doença e até mortes de algumas pessoas jovens e de meia idade sem condições subjacentes, sem mencionar a perda de adultos mais velhos. 
- O confinamento pode se tornar perturbador conforme os dias vão passando: pessoas que moram sozinhas, ou dos grupos de risco, profissionais de saúde. A solidão a longo prazo é capaz de promover danos `a saúde. O confinamento é interpretado como punição, gera agressividade na conivência com outras pessoas, ou como um sacrifício gerando raiva em relação aqueles que não cumprem as regras, parecendo colaborar para o caos
- Adicione pesadelos, estados contínuos de ansiedade, insônia e diminuição da concentração.

COVID-19 está levando a uma pandemia de doença mental?

Estamos testemunhando uma epidemia de trauma. Especificamente, quadro clínico do TEPT. (O TEPT é definido claramente como um distúrbio traumático com uma fratura real ou percebida com a vida).  

- Os impactos psicológicos de longo prazo de uma grande desaceleração econômica ainda não são conhecidos. 
- Com base em epidemias passadas e outros desastres, eles podem incluir o desemprego e as consequências relacionadas à violência doméstica e ao suicídio .
- Nos nossos pacientes com quadros psiquiátricos pode significar retrocesso no tratamento e piora. Onde há predisposição para o isolamento, nos quadros compulsivos e obsessivos (p.e. em relação a higiene e limpeza, medo de doenças), nos depressivos
- Ainda mais preocupante se considerarmos que pode acontecer coletivamente e `a nível global, com consequências agravadas para além da pandemia

Nos profissionais de saúde pode gerar muitos distúrbios emocionais: a escuta do sofrimento, a culpa em relação as limitações do tratamento ao lidar com a onipotência e a vulnerabilidade - acarretam altas taxas de depressão e ansiedade entre médicos e enfermeiros que tratam pacientes com Covid-19

- As alterações na vida cotidiana podem gerar consequências `a saúde na medida que exige percepção dos problemas e   mudanças no comportamento para se adaptar a nova situação.  Sendo necessário mobilizar recursos psicológicos: cognitivos, emocionais, afetivos, exigindo uma plasticidade psíquica (uma resiliência que nem todos têm).
- A espiritualidade também pode ser um fator que dificulte as medidas preventivas exigidas na pandemia e surgimento de doenças mentais: crenças de apocalipse, presença nos cultos religiosos como parte da proteção contra a doença
Apesar dos mecanismos de defesa disponíveis, neste momento é totalmente impossível não se sentir atingido ou influenciado por uma situação que coloca em xeque nossa saúde física e mental, economia mundial e sobrevivência.

Como nos defendemos deste cenário?

1º Com a negação: mecanismo de defesa básico e primitivo presente em qualquer circunstância que ameace a homeostase mental do ser humano; evitando não buscar informações a respeito do panorama mundial, para manter o distanciamento emocional de uma situação ameaçadora para que não se torne real.

- A imposição social e as consequências decorrentes confrontam em tempo real os indivíduos, exigindo condutas mais racionais e adaptativas.
- Para os profissionais da saúde, de modo ainda mais pessoal, a negação deixa de se sustentar a partir do momento que algum evento pessoalmente significativo confronta a realidade; como demanda alta de pacientes, a morte, a internação de colegas de trabalho; não há como se sustentar na negação quando os efeitos da realidade estão por toda parte.

2º) A revolta: a constatação da realidade imposta e de suas consequências iniciais em nossas vidas, quebra da homeostase habitual, leva a enxergar predominantemente o aspecto negativo, as perdas, incitando ainda sentimentos de culpa e medo, externalizados de modo irrefletido e pouco adaptativo.

Perdemos:

- A liberdade
- A autonomia
- A segurança fictícia que fantasiamos durante toda a vida
- O equilíbrio financeiro independentemente de nossa condição social
- A “certeza” ilusória de controlar nossas próprias vidas
- A zona de conforto de nossas funções profissionais, atualmente adaptadas à pandemia.
      - O tempo com nossas famílias, sem ter saúde mental suficiente para disfrutar, e sem a possibilidade de usar nossos recursos usuais de lazer e descanso.
      - Os profissionais de saúde se sentem totalmente engolidos pela profissão, e ainda mais afastados dos entes querido, sendo fadados a viverem de tecnologia para se aproximar das pessoas que amam.

3) A fase depressiva na vivência da Covid-19: lutos desencadeados pela Covid-19.

- Não há um único humano que não passará pelo luto, estamos todos no mesmo barco, mas com remos diferentes.
- Em um período mais maduro do processo de assimilação e enfrentamento da realidade, a revolta vai perdendo sua utilidade. A consciência dos fatos vai tornando-se mais plena, e abre-se espaço para a vivência emocional do caos.
- Chega-se o tempo de introspecção, manifestação da tristeza, vivência de humor mais deprimido, e isso é confundido por muitas pessoas com quadros de depressão ou desistência.
- Os profissionais da saúde, provavelmente sentirão junto ao contexto de exaustão e impotência, quando se der conta de que ainda com todos os esforços intensificados, salvar a população não está nas suas  mãos
- Os comerciantes, profissionais contratados que perderam seus empregos, prestadores de serviço, certamente estarão vivenciando a fase depressiva por motivos distintos.
- Manter a conexão dos pacientes com seus profissionais de saúde usando as plataformas de telemedicina é fundamental e "pode ​​ser a coisa mais importante que fazemos como profissionais de saúde mental".

- "Mesmo as pessoas idosas que são cognitivamente saudáveis ​​estão em risco, porque as reservas cognitivas estão em baixa. As ligações telefônicas são importantes para o contato e para garantir que os idosos estejam indo bem", disse Ahmed ao 
Medscape Medical News.
     - Ahmed e Forester recomendam que todos os médicos, incluindo os que estão na linha de frente da pandemia, examinem os pacientes quanto à solidão, depressão e comprometimento cognitivo

CONCLUSÕES FINAIS:

A compreensão real de nossos sentimentos e impressões, podem e devem ser refletidas no decorrer destes dias sombrios. Devemos nos permitir pensar sobre nossas frustrações, tristezas, revoltas, e também sobre as expectativas e desejos que preservamos, afinal, em algum momento isso vai passar.

• Se COVID-19 tem deixado sequelas pulmonares nos doentes mais graves, perda de entes queridos, além de muitas outras perdas.
O mundo viverá por anos as sequelas econômicas e emocionais impostas por esta pandemia.
• É um fato tão complexo que conseguiu unir nações em uma mesma realidade. Sim, estamos enfrentando dificuldades e tristezas de uma tragédia coletiva, e dentro de alguns meses teremos vivenciado nosso luto mundial. Os verdadeiros sobreviventes a este cenário caótico, não serão os sobreviventes da doença, e sim todos os indivíduos que conseguirem se adaptar de modo positivo e ressignificar sua vida a partir deste aprendizado.
• Precisamos desenvolver a resiliência verdadeira.