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06/06/2020
Autor: Angela Hiluey
Chiara Benini: Adoção e pesquisa de origens nos dias do Facebook - PORTUGUÊS


Adoção e pesquisa de origens nos dias do Facebook.

Chiara Benini (1)

 

Introdução

 

A influência dos vínculos de apegos e das primeiras experiências relacionais na formação da identidade é bem conhecida (Ainsworth, 1978; Bolwby, 1988). São aspectos  sobre os quais, no campo adotivo, raramente é possível intervir de forma preventiva, para sua determinação precoce, enquanto permanecem relevantes na prática psicoterapêutica para as possíveis consequências patológicas ou disfuncionais e para o impacto nas respostas resilientes (Walsh, 1998). Como Murray Bowen (1979) exemplificou e teorizou, o caminho de crescimento individual e da diferenciação necessário para ele passa pela comparação com o que é conhecido e o que não se sabe sobre a família de origem, em redundâncias e correspondências com pontos às vezes remotos ou marginais do genograma. Esse trabalho recursivo sobre a própria história e identidade coloca a questão controversa das relações que os adotados devem ou podem ter com os pais ou outros membros da família biológica (Pregliasco, 2013).

Vários estados fizeram diferentes escolhas legislativas e culturais, com uma prevalência para a disponibilidade da chamada adoção simples ou aberta, na Grã-Bretanha, França e Estados Unidos, enquanto a adoção legitimada ou fechada foi escolhida como modo predominante na Espanha, Alemanha, bem como na Italia. (Bisio, 2009). A adoção aberta exige que a relação entre adotados e pais biológicos não seja quebrada como resultado da adoção, concordando com o tempo e a forma de encontro entre os adotados e pais naturais ou com o envio de informações ou fotografias. As crianças, portanto, crescem conhecendo seus familiares biológicos ou podendo acessar, diretamente ou por meio de serviços sociais, dados atualizados sobre a família de origem. Pesquisas realizadas até agora tendem a relatar melhores resultados em adoções abertas, embora as variáveis sejam muitas e nem todas tenham sido examinadas. Independentemente da escolha  legislativa feita, agora em todos os estados adotantes o clima de sigilo que envolvia o fato adotivo até poucos anos atrás passou a cair em vantagem de uma abertura ao diálogo, ao direito do filho adotivo de conhecer desde o início sua própria história e suas origens (Brodzinsky, Palacios, 2005).

A legislação italiana, a partir do Ato 184 de 1983, então reformado pela Lei 476 de 1998 até as alterações mais recentes feitas com o nº 149 em 2001, estipula que a adoção é definitiva, com a secreção da identidade anterior e o término completo das relações com a família de origem (Avigliano, Felcioloni, 2010). Mesmo na chamada  adoção sob risco legal, embora prevendo a possibilidade de encontros entre a criança e um ou mais parentes da família de origem, os relacionamentos não são estabelecidos para uma convivência duradoura na vida da criança, as duas famílias não têm contato direto, nem se conhecem, em um procedimento destinado a terminar em favor de uma das duas "facções pretendentes". No que diz respeito ao conhecimento de uma pessoa adotada sobre seus próprios dados de origem, a pedido do Tribunal Europeu de Direitos Humanos, está sendo estudada uma mudança na legislação vigente, para permitir que a criança não reconhecida ao nascer, atinja a maioridade (e não mais aos 25 anos), faça uma "solicitação" ao Tribunal para conhecer os dados de seus pais biológicos. No entanto, essa solicitação só pode ser feita uma vez e os pais podem não dar o consentimento.

 

O jovem adotado, no caminho da construção de identidade, é, portanto, confrontado com múltiplas adesões, em uma árvore genealógica múltipla em que a família de origem pouco conhece e o acesso a contatos e informações é muitas vezes difícil ou até mesmo impossível, pelo menos através dos canais oficiais. Hoje em dia, porém, há um canal de busca adicional, com menos limitações e em mãos: a rede social, ou seja, Facebook, Whatsapp, Instagram e todas essas plataformas, sites e aplicativos que são destinados a conectar pessoas.

Um aspecto importante da escolha do iniciar sua pesquisa via rede social é certamente a idade, já que o pedido de notícias sobre a família de origem tornuo-se gradualmente mais precoce, mas ainda mais decisivo é a necessidade de ter informações cada vez maiores e mais vívidas, para buscar mais do que os pais adotivos sabem ou o que eles disseram (veja tab 1). O que a família adotiva tem disponível para enfrentar este caminho com seu filho, é de fato composto de  informações datadas, muitas vezes escassas, que na maioria das vezes não satisfazem as perguntas internas daqueles que sentem a necessidade de conhecer acima de tudo os motivos de sua história biográfica.

 

 

Adoção nos dias do Facebook

 

Desde o nascimento, na década de 1960, da "teoria do pequeno mundo", mais conhecida como a "teoria da separação de 6 graus" segundo a qual cada pessoa pode ser conectada a qualquer outra através de uma cadeia de conhecimento e relacionamentos com não mais do que cinco intermediários (Travers, Milgram, 1969), nem mesmo a difusão da Internet em nível global tinha conseguido "aproximar"  mais as pessoas (Dodds , Muhamad, Watts, 2003); é somente com a difusão do Facebook que uma redução para 4 graus de separação entre indivíduos do planeta é detectada (Backstrom, 2011).

De acordo com as observações relatadas por Della Dora (2016), no início de 2016 "o número de usuários totais de internet cresceu 10%; o número de usuários ativos nos canais sociais aumentou em 219 milhões de unidades (aumento de 10%); (...) O número que mais cresce é o número de pessoas acessando mídias sociais a partir de dispositivos móveis: 17% (o aumento é de 283 milhões de pessoas)”.

Para as crianças de hoje, adotivas ou não, é difícil imaginar o mundo de apenas 10 anos atrás, quando na Itália o uso de telefones celulares se limitava a telefonemas e mensagens de texto. O primeiro celular com funções multimídia de fato vêm a luz nos Estados Unidos em 1993, enquanto as primeiras redes sociais nascem nos Estados Unidos depois de 2000: entre os quais o Facebook nasceu em 2004, o Twitter em 2006, e antes de sua difusão em nosso país ainda se passam alguns anos.

 

Enquanto isso, a adoção em si mudou significativamente: mais da metade das crianças adotadas estão em idade escolar, com 61,3% dos casos decorrentes da perda da responsabilidade parental, 30,4% do abandono, 7,3% da renúncia, enquanto apenas 1,3% dos casos respondem ao status de órfãos (Comissão de Adoções Internacionais, 2014). São menores com histórias e memórias complexas, ambivalentes ou confusas, conscientes em muitos casos de seus próprios dados pessoais, que muitas vezes pedem para manter contato com os amigos da instituição ou com a família de acolhimento  que os hospedou; cada vez com mais frequência, desde pré-adolescencia e às vezes desde o início da adoção, eles buscam notícias da família de origem, especialmente dos irmãos adotados em outros lugares ou que permaneceram no núcleo familiar.

 

Não surpreende, portanto, que o sistema legislativo, por mais fiel ao texto de 1983, seja ineficaz no que diz respeito  às rápidas mudanças de cenários e possibilidades de contato e pesquisa, principalmente porque se torna quase irrelevante se seja adotado na Itália ou de um país distante.

 

Esther, de 11 anos, desde que chegou para adoção há 4 anos, faz buscas através de pedidos oficiais ao país de origem de notícias do irmão que conhecia doente; ela nunca conseguiu  saber de algo, mesmo que esteja vivo. A hipótese mais provável, visto a dificuldade de viajar para o país de origem, é que Ester decida um dia iniciar uma busca por conta própria através das redes sociais. Enquanto isso, a família, dopois de consultar a psicóloga, a ajuda e a apoia nessa fase de indeterminação, preparando e avaliando ao longo do tempo quais soluções podem melhor satisfazer as necessidades de pesquisa com a capacidade de lidar com as notícias que podem ou não estar lá e suas consequências.

 

Um aspecto interessante diz respeito à atenuação das emoções e riscos que o canal virtual promete com a não fisicalidade do contato (Barbieri, Meloni, 2012).  Por trás da cortina digital o adolescente pode se sentir mais protegido do que realmente é, tanto em um nível prático quanto em termos das emoções que podem ser desencadeadas nele. Outros riscos surgem da deficiência legislativa associada ao rápido desenvolvimento tecnológico, mas também à dificuldade de promulgar leis comuns compartilhadas por diferentes estados (Fogarolo, 2013).

 

Tab. 1 – Principais diferenças entre pesquisas oficiais e via mídias sociais

 

Canais oficiais

Mundo social

Idade mínima para aplicar

Dependendo dos países, entre 16 e 25 anos

A partir dos 13 anos de idade até o registro (mesmo antes de declarar uma data falsa de nascimento)

Tempo e custo

Pelo menos semanas ou meses, você pode ter que viajar para o seu país de origem

 

Alguns momentos se o outro estiver registrado e nos aceita ou tem um perfil público... sem custo.

Aplica-se a:

Principalmente os pais, com dados de tempo de adoção, variam em precisão e tamanho de acordo com o país de origem.

Informações

frequentemente datadas  e "oficiais"

Qualquer pessoa cujo nome seja conhecido e alguns outros dados, desde que esteja registrado na internet (ou conhecidos por aqueles que estão na rede): irmãos, primos, famílias adotivas, instituições, etc. Com informações atuais, multimídia e "diárias"

Qualidade dos dados

Fonte normalmente autorizada e verificada.

Não há garantia de veracidade.

 

 

Além do aspecto estritamente legal, que esperançosamente destinado a uma melhoria progressiva, existem proteções de fato que faltam devido ao imediatismo desse  meio. Ser capaz de rastrear um parente expõe diretamente o pesquisador, entre outras coisas a:

·           rejeição;

·           descoberta de aspectos ou condutas que trazem dor, aborrecimento ou desilusão;

·           receber notícias falsas e/ou manipuladoras;

·           intensidade de contato ou solicitações para as que você não está pronto;

·           se não é um perfil aberto, que pode ser observado sem se expor ao pedido de amizade, você sai em público e inevitavelmente dá notícias de si mesmo que não podem então ser re-seleadas!

·           Além disso, é muito mais fácil para a criança agir sem envolver a família adotiva, então se encontrando sozinho tendo que gerenciar o que está acontecendo por medo de parecer injusto ou ser banido de contatos iniciados. Às vezes isso cria distância dentro da família até mesmo para as reações de fechamento, dor ou raiva dos pais, isolando a criança agora quando ela está mais frágil.

 

Alejandra foi adotada aos 10 anos, passou por momentos difíceis e várias vezes a família consultou psicólogos para si mesma ou para sua filha, às vezes também competentes no campo da adoção. Tendo chegada à adolescência, ela procura e encontra  no Facebook uma irmã da qual se lembra; esta, ao contrário de Alejandra, permaneceu na família de origem. Ela fala sobre a sua mãe, dizendo que ela está doente.

Rapidamente A. entra em contato direto com sua mãe biológica que lhe pede dinheiro e brevemente a convida para voltar ao seu país de origem para conhecê-la. A menina está confusa, ela recua, mas agora muitas coisas foram despertadas nela: perguntas sobre por que ela foi deixada, ou pelo menos não retomada, ao contrário de sua irmã, sobre o que leva sua mãe a "convidá-la para casa", ela se pergunta se é apenas por oportunidade ou se ela realmente se importa com ela. Ela não quer se sentir como a má, que nega ajuda, mas nem mesmo "a galinha para depenar, e jogar." Parece paralisada e os equilíbrios meticulosamente alcançados são questionados.

 

Situações como essa efetivamente exemplificam a dificuldade que a família e a criança envolvida enfrentam repentinamente e o quão importante é a preparação efetiva e o apoio adequado.

Diante desses riscos, porém, o fato é que a busca por familiares adotivos por meio dos canais sociais é uma realidade em grande expansão (Fursland, 2013). Mesmo para aqueles que não têm dados pessoais para começar, existem sites e páginas do Facebook projetados para conectar pessoas que procuram seus familiares biológicos. Uma análise dessas fontes (Bertetti, 2013) mostra que a família adotiva desempenha um papel importante no caminho da pacificação e integração de experiências relacionadas à família biológica. Em famílias onde uma história sólida e aberta comum foi construída, as crianças podem ir em busca de notícias sobre seus pais com a força de uma associação sólida, uma base segura construída na segunda infância (Crittenden, 1999) da qual você pode se afastar precisamente porque você sabe que pode confiar nela se estiver em apuros (Cigoli, 2006). Isso não é verdade se o argumento "antes" for vivenciado como um tabu que não pode ser forçado, sob o risco de perder o direito de permanecer na nova casa, ou se o vínculo não for bem desenvolvido. Nestes casos, você não desiste da pesquisa, mas faz isso secretamente, sozinho e construindo uma vida cada vez mais dividida.

 

As diferenças nos estudos de caso desses contatos podem ser muitas e substanciais, mas ainda é possível realizar uma esquematização, mantendo a necessidade na prática de avaliar cada caso em sua completude e complexidade.

 

 

A busca por pais biológicos por filhos adotivos.

 

A busca pelos pais é um fato simbolicamente importante seja qual for o canal através do qual ela ocorra: é necessário, antes de tudo, compreender seu significado, também em relação à idade da criança e sua história pré e pós-adotiva. Isto com aqueles que nos geraram é um vínculo profundo, ligado à identidade, que para um jovem adotado é muitas vezes ambivalente e com o qual mais cedo ou mais tarde terà de enfrentar. Lidar com as figuras parentais é uma tarefa evolutiva complexa para todos, mas a adoção tem conotações muito mais intensas, pois também está ligada à perda do vínculo, a sensação de que o amor e a receptividade dos pais às necessidades concretas e mentais dos filhos é e deve ser um fato natural e indiscutível, enquanto a experiência mina essa premissa básica de confiança. Na maioria dos casos, o processo de processamento de tudo isso ocorre em muitos pequenos momentos, durante os anos de crescimento, e depois culmina na adolescência ou início da vida adulta em um processo de síntese de maior profundidade e complexidade. Além do tempo naturalmente ligado às tarefas características da fase do ciclo de vida, às vezes tais buscas podem surgir de uma ansiedade causada pela morte ou doença de um familiar que pode despertar medos de abandono e busca por segurança no passado, outras vezes pode ser o espião de uma dificuldade de inclusão na família ou na sociedade.

Em alguns casos, as memórias da vida antes da adoção podem ser pesadas, fazendo perguntas não fáceis, enquanto em outros pais biológicos são memórias remotas ou figuras idealizadas das quais muito pouco se sabe; este é um aspecto delicado, pois enquanto o pai é responsável por preparar a criança para as eventualidades que podem estar à frente para despertares dolorosos, por outro lado ele não pode correr o risco de parecer hostil a eles e tentar encontrá-lo pela criança.

Nesse sentido, os pais adotivos devem ser capazes de gerenciar seus medos a fim de sair de perigosas lógicas competitivas que levam a segredos inevitáveis e colocá-los no medo constante de perder seu filho que deve, em vez disso, ser acompanhado nesta delicada e intensa conjuntura (Lorenzini, 2004).  Torna-se, então, necessário que o pai adotivo não desvie seu olhar das razões que levaram a criança a ser adotada, a partir desse abandono (Vadilonga, 2004), real ou, pior ainda, feito de pesadelos físicos e mentais, com os quais pais e filhos às vezes enfrentam em silêncio sozinhos. 

 

Ilaria foi adotada aos 10 anos, junto com sua irmã mais nova Giulia, 8 anos, com adoção nacional. Quando ela foi tirada de sua mãe, ela prometeu que sempre daria notícias de si mesma, ela tinha o seu número de celular. Ela agora tem 12 anos e inseriu seu número no whatsapp. Então, com seu sobrenome de origem ela se juntou ao Istagram enviando-lhe  um "olá". Seus amigos a aconselharam a não contar aos pais adotivos, mas ela contou à eles sobre o whatsapp, mesmo que não sobre o Instagram, já que ela não tem permissão para usar as redes sociais; mas deixou traços muito óbvios. Os pais estão zangados, confusos, eles pensam que na primeira bronca ela vai correr para contar a sua mãe biológica, preferindo-a a eles. Eles vivem ansiosos.

O primeiro nível de intervenção com essa família consiste em acolher e aceitar as dificuldades desse casal de pais, ajudando-os a sair de seus esquemas, enfrentando as inseguranças que os determinam e observar todos os detalhes do quadro: talvez Ilaria esteja tentando envolvê-los, não  ousando perguntar: A reação de medo deles é óbvia para a filha? Como isso pode ter afetado o comportamento de Ilaria? O uso do sobrenome original também poderia ser um comportamento maduro, devido ao conhecimento de que eles não deveriam ser rastreáveis, como decidido pelo Tribunal e como a família lhes explicou. A busca pela mãe também pode não ter a ver com a rejeição dos novos pais: talvez ela esteja apenas cumprindo a promessa que fez. Ajudá-los a se colocarem na cabeça de Ilaria permite que saiam de experiências paranóicas e construam com a garota uma aliança sólida, capaz de apoiá-la se a situação evoluir, e ao mesmo tempo, fortalecer a união familiar.

 

De qualquer forma, a escolha do meio social para esse tipo de pesquisa vai muito além do caminho interno de significados e histórias e lança o jovem para uma realidade sem filtros e, ao mesmo tempo, muitas vezes distorcida pelo fato de cada um "seleciona" o que é dele ou da sua vida para colocar nas mídias sociais, sejam versões "lamentáveis" dos pobres inocentes, cujos filhos amados foram injustamente dilacerados, se a parte transgressora de si mesma é encenada ou mesmo apenas a de uma pessoa feliz e adequada, talvez com uma família e filhos. Pedaços de verdade muitas vezes muito parciais, mas com enormes consequências para as ressonâncias internas que podem gerar.

Uma coisa a ter em mente ao gerenciar esses tipos de contatos é que os pais biológicos são muitas vezes adultos jovens com conduta disfuncional. A criança pode ser exposta a conteúdos inadequados e, se for um adolescente, pode tentar imitar os piores aspectos comportamentais, tomando assim uma hipótese de identidade negativa, na qual é muito fácil forçar os outros a nos reconhecer e que, portanto, tende a encontrar confirmação. É uma alternativa fácil à sempre cansativa da integração  positiva do eu em um mundo em que um adolescente sempre se sente inadequado, ainda mais se ele saiu com atrasos, desvantagens e inadequações comportamentais. Pais adotivos alarmados com esses "experimentos" devem ser ajudados a não cair na armadilha de enviar de volta ao seu filho uma imagem dividida, na qual sua parte negativa ou ruim é totalmente atribuível aos pais biológicos e experiências traumáticas do passado, um defeito de fábrica irremediável, ou no máximo para "enviar para corrigir" pelo psicólogo, enquanto a parte boa é inteiramente devida ao amor salvador deles, portanto também é expropriada pelo jovem.

 

 

A busca por irmãos

 

Quer se trate de irmãos com quem viveram, ou há apenas memórias vagas, é muito comum que uma criança adotada sinta a necessidade de buscar parte da fratria. Muitas vezes a motivação básica é a preocupação, quando eles se sentem em condições mais afortunadas, para ajudar aqueles que tiveram os mesmos eventos difíceis e talvez ainda estejam em dificuldades.

Às vezes, mais irmãos foram levados com suas famílias e depois divididos em diferentes instituições ou alguém ficou com um parente; a criança pode saber de um irmão mais novo, na maioria das vezes nunca conhecido, mas cujo destino ela quer saber. Finalmente, em alguns casos, são irmãos e irmãs mais velhos, que por um período se encarregaram, na medida do possível, do irmãozinho ou irmã mais nova que agora está procurando por eles.

A facilidade de rastreá-los muda de acordo com as leis de diferentes países, mas também com o fato de que os irmãos permaneceram na família (mesmo que estendida), estão na instituição, acolhimento ou adoção. A história da fratria e outros fatores então influenciam a dinâmica e o peso da relação que pode vir a ser criada e isso também pode gerar experiências importantes de decepção ou ambivalência. Pais adotivos às vezes podem se sentir forçados a gestos de acolhimento mais ou menos diretos, mesmo para os irmãos encontrados. Em famílias que estão pensando em uma segunda adoção, a fantasia de adotar o irmãozinho pode surgir, embora talvez isso não seja possível por razões processuais ou porque não é adotável.

 

Omar, Sadi e Jason são colocados em lares adotivos em seu país, mas a família só adota Jason. Omar e Sadi são, assim, enviados de volta ao instituto e preparados para uma nova inserção, para adoção internacional, mas ninguém se importa com o vínculo fraternal quebrado: eles não recebem esclarecimentos nem notícias de seu irmão, nem das razões pelas quais foram "descartados". A falta de Jason explode com a chegada dos novos pais. Os três são então reunidos "para dizer adeus" e trocam contatos no Skype. A família de Omar e Sadi sente o dever de manter a fratria oferecendo contato regular, mas vê as crianças ficando inquietas com Jason, que as rejeita, e sua família que as seduz. A cada chamada Jason é cada vez mais evasivo, enquanto os pais dele mostram interesse excessivo e desvalorizam com críticas e comentários propondo aos dois filhos como aqueles que satisfariam todas as suas necessidades.

Os pais adotivos recorrem ao psicólogo que seguiu o caminho, o que os ajuda a se afastar, deixando seus filhos decidirem se e quando ligar para seu irmão, mantendo-se discretamente vigilantes para que as chamadas sejam realmente com Jason e não com seus pais adotivos, e ouvindo mais seus sentimentos. Em pouco tempo os contatos desaparecem, os dois evitam ao máximo o diálogo com as pessoas de quem se sentiram rejeitados e ouvem seu irmão algumas vezes por ano: eles não têm muito a dizer a não ser assegurar-se de que estão todos bem. Suas vidas foram ligadas, mas agora prevalecem as diferenças de idade, contexto e interesses. Ajudar as crianças pode significar ser flexível à medida que as necessidades mudam: entrar em um novo mundo é um desafio, e por um tempo sua história e complexidade têm que entrar em segundo plano. Só mais tarde será possível retrabalhar as memórias e experiências do passado e a relação com o irmão adquirirá um novo significado de continuidade para sua própria história.

 

 

Contatos com outros parentes

 

A busca por outros parentes geralmente sinaliza a necessidade de recuperar uma adesão de uma forma diferente, menos diretamente do que se você entrar em contato com pais e irmãos: portanto, é necessário se perguntar sobre os motivos dessa escolha. Em particular, é apropriado perguntar se o contato é deliberadamente com eles ou se o menino tem outras figuras em sua cabeça, mas não (ainda) as encontrou ou procurou. Além disso, a situação muda dependendo se ele está procurando um vínculo emocional que existia em seu passado ou, em vez disso, ele tem que construir um do zero. Como sempre, deve-se prestar atenção também ao nível de maturidade do jovem na gestão desses contatos, sujeito a fantasias irrealistas tanto naqueles que promoveram contatos quanto naqueles que os aceitaram.

 

Maria, Carmen e Xavier foram adotados aos 10, 9 e 8 anos, respectivamente. Aos 22 anos, Maria busca notícias de seus pais via Facebook e encontra alguns parentes. Através deste primeiro contato ela descobre que os pais estão mortos. Ela compartilha com seus irmãos as notícias e os contatos, que continuam por um tempo com trocas mútuas, incluindo as de suas próprias fotos e seus filhos. Finalmente rostos para se espelhar! Então as diferenças começam a ser sentidas: parentes distantes são muito pobres e parecem olhar para o que a adoção trouxe aos três irmãos com um pouco de inveja, também para entenderem-se um ao outro é necessário a tradução dos pais adotivos, pois Xavier, o mais interessado em continuar contatos, não se lembra do espanhol.

 

Na gestão dos contatos, as relações entre esses parentes e os pais biológicos dos adotados devem ser levadas em conta, pois é improvável que fiquem por muito tempo desconhecendo as notícias que a criança dá de si mesmo. Por outro lado, em casos como o acima, os membros da família podem ser fontes valiosas de respostas sobre o que aconteceu no passado e no tempo desde que a criança deixa a família, embora muitas vezes seja uma versão raramente verificável dos fatos.

 

 

Contatos extrafamiliares

 

Durante muitos anos, se deu um peso considerável às ligações de amizade como um auxílio à continuidade existencial da criança adotada, tanto quanto para adotar crianças que não eram geneticamente relacionadas, mas que viveram como irmãos no instituto, os chamados irmãos de berço. Hoje isso não acontece mais, mas a importância desses laços na história de vida e na resiliência dessas crianças não mudou.

Às vezes é possível encontrar-se em uma nova vida  porque ambas são adotadas por famílias do mesmo país, em muitos outros casos, em vez disso, as contingências de vida diferem e manter um vínculo não é fácil. Em geral, o tempo percebido e lembrado se expande e se contrai de acordo com as situações em que vivemos e muda ainda mais na memória (Boscolo, Bertrando, 1993), mas o tempo na instituição em particular é um tempo parado, tanto quando você o vive como em sua memória, enquanto ele volta a fluir de forma rápida e densa com a chegada da nova família. Então, acontece de encontrar crianças adotadas que pensam em enviar roupas para o instituto para o amigo sempre do mesmo tamanho, não sendo capazes de imaginar que o outro, como eles, está crescendo. Nesses casos, a ajuda que pode ser necessária visa principalmente a gestão da distância de experiências e situações de vida, para enfrentar os sentimentos relacionados à rejeição ou desinteresse daqueles que, por não terem encontrado uma família, não podem "suportar" os sentimentos de perda e desvalorização a que a manutenção de uma amizade tão particular o sujeita, bem como reconhecer suas próprias necessidades, incluindo a de raros contatos sem ficar preso em dolorosas lealdades e sentimentos insidiosos de culpa.

Se, por outro lado, os contatos são pesquisados e restaurados posteriormente, é prioritário entender se é nostalgia (legítima) pelo afeto, um desejo de ajudar aqueles que ainda não encontraram uma família ou uma fuga da realidade atual. Mais uma vez, a criança deve estar preparada para quaisquer rejeições ou diferenças do que ele se lembra e espera. Na maioria dos casos, também foi criada uma barreira linguística, devido à freqüente remoção da língua materna, que muitas vezes é escassa no início; às vezes são pais adotivos que se tornam tradutores para as crianças, em outros casos é entendido instintivamente e parcialmente, mas nem sempre é possível construir um diálogo. Estes são, no geral, eventos positivos e geralmente simples de lidar no nível familiar.

 

Em vez disso, um discurso separado deve ser feito para manter contato com os funcionários que trabalham no instituto, no lar de acolhimento, nos serviços. São figuras muitas vezes positivas na vida da criança, que foram capazes de criar laços de apego preciosos para a sobrevivência mental da criança e que, por vezes, se fundem em memórias aos pais, nunca conhecidos ou deixados desde cedo. Os pais adotivos, no entanto, podem acompanhar esse desejo sem imaginar a presença de laços e sentimentos profundos, encontrando-se desorientados e magoados quando o percebem. É importante lembrá-los que não há competição e que, de fato, os laços atuais são possíveis em virtude do que foi anteriormente semeado. Na maioria das vezes são figuras que permanecem na vida da criança durante todo o crescimento, às vezes para a vida, com contatos pouco frequentes, porém sinceros e recíprocos, possibilidades preciosas de encontrar, mesmo na vida pré-adotiva, a sensação de ter contado para alguém, de ter sido digno de proteção e cuidado. Os meios digitais nesses relatórios provam ser aliados valiosos, esperando para serem vistos novamente.

No entanto, não se diz que a criança é madura o suficiente para essas relações de longa distância, mas uma vez iniciadas elas não são fáceis de acabar ou "congelar", uma vez que os adultos envolvidos nem sempre têm plena consciência de seu impacto na vida atual das crianças que vivem na instituição.

 

Matteo e Sabrina pedem ajuda para gerenciar os contatos entre sua filha Sara e uma "tia", como é comumente chamada uma pessoa do instituto que cuida das crianças. Após um primeiro contato via whatsapp pela garotinha, por curiosidade para "saber se ela se lembrou", a mulher continua a enviar  mensagens para Sara. Isso desestabiliza a criança que luta para criar raízes e se sente lembrada por um mundo de afetos idealizados, ao invés de reais: as dificuldades surgem na consolidação da família, já que Sara a cada bronca se refugia na ideia, verbalmente corroborada por a tia, de ter um possível outro lugar em que poderá ser amada sem restrições.

O casal está muito angustiado, preso entre a ideia de proibir contatos e renunciar ao medo de ser rejeitado. O terapeuta, depois de coletar os dados, considera útil reduzir a ressonância da situação e aconselha deixar a questão em destaque limitando-se a perguntas curtas "realistas", sem dificultar os contatos ou degradar a figura da tia. Sara se sente menos compelida a defender sua tia e lentamente reduz o contato.

A família continua seu caminho de consolidação de forma positiva, com a crescente confiança de Sara em seus pais a quem ela fala de um irmão que permanece no país de origem que ela gostaria de procurar, enfrentando com eles e o terapeuta que os segue os possíveis cenários que esse desejo implica.

 

 

Sendo pesquisado

 

As estatísticas disponíveis até o momento nos dizem que os casos em que foram adotados que deram o primeiro passo da pesquisa (Fursland, 2013) também podem acontecer que, diretamente ou de boca em boca, pessoas da instituição ou da família tentem a entrar em contato com a criança. Eles também podem publicar fotos em rede ou outros materiais sensíveis que possuem. Finalmente, existem recursos e aplicações mais ou menos conhecidos e difundidos que podem facilitar o rastreamento, como reconhecimento facial e geolocalização, o que é particularmente insidioso porque são frequentemente usados inconscientemente (Fogarolo, 2013).

Obviamente, aqueles que buscam o contato, e como  o fazem, são aspectos importantes, pois podem, por um lado, subjugar diferentes intenções e, por outro, evocar sentimentos diferentes tanto em pais adotivos quanto em filhos. Igualmente importante é o tempo dessa invasão não necessária, em comparação com a 'idade' da família e a idade da criança.

Além disso, não é certo que o contato chegue  diretamente a criança, espera-se que ela chegue primeiro aos pais adotivos que poderão filtrar e avaliar se e como envolver a criança.

 

Marco e Lucia têm adotado duas crianças por um par de anos. Por um tempo, uma gerente do instituto onde as crianças estavam alojadas tem procurado por elas: ela posta suas fotos online, ela pede a outros casais italianos detalhes de contato. O casal está irritado e preocupado: as crianças têm más lembranças do instituto, onde também foram espancadas e assediadas sexualmente e apenas o ouvem mencionar perdem o sorriso e a serenidade. Infelizmente, não há muito o que fazer para coibir isso, não há como proibi-los de procurá-los ou postar suas fotos e dados pessoais. Meses se passam, até que uma família adotiva que esteja em contato com o chefe do instituto volte para a instituição autorizada que acompanhou a adoção. Felizmente ele para por aí e entra em contato com ele para saber o que fazer, isso permite que a instituição explique a situação e filtre. A família dirá à senhora que ela sabe que as crianças estão bem sem revelar mais nada. Levou mais de um ano, no entanto, para aplacar a insistência desta mulher.

 

 

Quanto aos pais biológicos que entram em contato com seus filhos adotivos, os casos mais comuns são:

·           Mães que não reconheceram seu filho e após anos o procuram, para repensar ou porque as condições objetivas que levaram ao abandono deixaram de existir (Miliotti, 2011).  Mães que trouxeram seus filhos para a instituição, consentindo com a adoção, mas sem mediação cultural que esclarecesse o aspecto do término definitivo do vínculo. Durante muito tempo, episódios deste tipo não eram incomuns no Sudeste Asiático e na África, onde, além disso, os funcionários da escola não eram firmes em manter a identidade dos novos pais em segredo. Nesses casos, tanto o contato direto com pais adotivos quanto com crianças adotadas pode ocorrer. O tema é o que fazer com as informações recebidas, em particular em relação à possível descoberta de que a mãe não havia "abandonado" seu filho.

 

Marino foi adotado há alguns meses no Vietnã. Depois de 16 anos ele recebeu em sua página no Facebook um pedido de amigo de uma mulher que afirma ser a mãe biológica e quer conhecê-lo. O garoto nega amizade. Ele não quer saber de nada, mas ele fala sobre isso, chateado, com sua mãe adotiva.

Depois de muito tempo pensando nisso, ela decide estabelecer um relacionamento com a mãe biológica de seu filho, a fim de poder dar ao menino uma chance de confrontar sua história um dia. Ela descobre uma história com contornos diferentes do que o arquivo relatou: não é fácil para ela aceitar e processar novas informações e encontrar espaço para esse novo relacionamento, mas ela sente que está fazendo um trabalho que seu filho não seria forte o suficiente para fazer, e isso será valioso para ele crescer quando ele se sentir pronto para olhar para o seu passado.

 

·           Pais que deixaram da responsabilidade parental, que estão tentando encontrar seus filhos adotivos, ou que estão em processo de deixar sua terra natal com filhos colocados em orfanatos com risco legal. Estes são os casos em que é preciso muita cautela para proteger aqueles que foram removidos dessas pessoas.

 

 

Até agora, focamos no impacto desta pesquisa sobre as crianças adotadas que fazem isso. Vale lembrar, no entanto, que há outras pessoas envolvidas, que podem estar muito perturbadas com essa pesquisa.

Nas famílias que adotaram irmãos, por exemplo, não se diz que todos estejam igualmente ansiosos e prontos para enfrentar as notícias que podem receber de uma busca por parentes: memórias e relacionamentos podem ter sido diferentes, nem sempre positivos. Da mesma forma, em famílias com filhos de diferentes adoções, às vezes um dos dois tem dados suficientes para conhecer e pesquisar, enquanto o outro não tem nenhum ou vem de áreas onde a internet e os canais sociais não são difundidos. Sem negar a necessidade de uma criança, deve-se, portanto, ter cuidado para evitar compartilhamentos forçados que possam levar o outro a crises graves, a ponto de gestos extremos.

Parentes de origem também podem ser perturbados e prejudicados por serem contatados por uma criança adotada. Isso é evidenciado pelo debate acalorado sobre a preeminência do direito da criança de saber suas origens contra a de sua mãe para permanecer em segredo. São pessoas que costumam ter grandes fragilidades, às quais problemas sérios podem ser adicionados como resultado dessas violações, como a perda de um parceiro ou exclusão social, ou no caso de irmãos, distúrbios graves e questionamentos do relacionamento com os pais. Por isso, é útil ajudar os pais adotivos e os filhos adotivos a refletir também sobre o que aconteceria com os outros envolvidos, embora isso possa parecer-lhes de menor importância. Na verdade, o pensamento tende a seguir lógicas lineares e simplificadoras, ao mesmo tempo em que introduz a complexidade, embora mais extenuante, ajuda a desenvolver a capacidade de ver que a própria história não tem uma única face, não está encerrada em uma única verdade, mas é o resultado de muitos fatores, cada um é feito de luzes e sombras. Por isso, é necessário investir, mesmo que terapeuticamente, no desenvolvimento de uma boa função reflexiva (Fonagy, Target, 1997), para que pais e filhos adotivos saibam distinguir emoções, experiências e necessidades adequadas das dos familiares e, ainda mais, das pessoas com quem você está em contato virtual, de modo a reduzir o risco de idealizações ou excessos de defesa. É, no entanto, um passo importante em poder integrar em si uma identidade plena e positiva que não elimina os aspectos negativos de uma história de vida não fácil, mas pode integrá-los fazendo sentido, uma narrativa e uma dignidade aos eventos que precederam e acompanharam a adoção.

Os exemplos propostos destacam o quanto é importante levar em conta com a devida seriedade as reais consequências dos movimentos que ocorrem apenas na aparência no mundo virtual, uma vez que emoções, significados e, por vezes, consequências práticas são absolutamente concretas e reais.

 

Além disso, refletir e agir, tendo em mente as necessidades, experiências e sentimentos dos pais biológicos, pode ajudar a prevenir e gerenciar qualquer um de seus comportamentos oscilantes, cansativos e confusos para a criança que os sofre. Na verdade, não é incomum ver momentos comoventes de aparente aproximação, de recuperação do relacionamento que, sem lógica óbvia, alternam fases de distanciamento, com manifesto aborrecimento, desqualificação ou indiferença. O primeiro pode responder à necessidade do pai de provar a si mesmo e ao mundo que a criança queria e tinha que ficar com ele ou absolver-se de um abandono escolhido ou induzido, às vezes também por razões de oportunidade das quais um aparente interesse na recuperação do relacionamento. Da mesma forma, as razões para o afastamento podem ser muitas e nem sempre claras: às vezes estão relacionadas ao fato de que ninguém na vida atual do pai biológico sabe sobre essa criança e há preocupação de que a descoberta envolva exclusão da família atual ou isolamento social, além disso, o contexto social de vida muitas vezes é objetivamente difícil, finalmente não raramente há transtornos de personalidade e outros transtornos mentais que contribuíram para a perda da responsabilidade parental. Não se pode esquecer que o pai biológico, por sua vez, está inserido como uma criança em cadeias multigeracionais que obviamente afetaram (e evidentemente já afetaram) a capacidade de funcionar como pai (Boszormenji-Nagy, Faíscas, 1973). Essas inconsistências geralmente envolvem  o menino em mecanismos de pesquisa, em si mesmo e em suas supostas inadequações, das causas desses comportamentos repentinos e são muito mais prejudiciais do que uma rejeição clara, uma vez que, como sabemos, a mensagem relacional mais patogênica é precisamente a não confirmação (Watzlawick, Beavin, Jackson, 1967).

 

Conclusões

O processo de construção da identidade é certamente um caminho complexo para todos, mas para um jovem adotado envolve a necessidade de confrontar múltiplas associações, com modelos muitas vezes antitéticos de identificação, com descontinuidades e vazios, perguntas e sentimentos nem sempre fáceis de lidar. Por este motivo, a primeira solução procurada naqueles que deveriam estar cientes de si próprios porque não foram resolvidos. Alcançar essas pessoas, física ou virtualmente, é um difícil caminho pessoal de medo, desejo e necessidade. O advento das mídias sociais tornou mais fácil procurar pacientemente e perseverantemente por suas origens, mas também o gesto corajoso e às vezes inconsciente de um instante  em que se tenta  o contato. Uma mudança de meio que traz consigo aspectos peculiares e outros aspectos mais transversais, o que é bom saber por que, como todo instrumento do homem, tem em si possibilidades criativas e destrutivas, dependendo do uso que é feito deles.

 

Na atual situação de  adoção, o caminho da busca nas redes sociais, mais ou menos voltado para o contato real, é inevitável. Nem todo mundo vai buscá-lo, mas nada poderá ser feito para determinar que isto não aconteça. Para torná-lo um recurso mais do que um risco é necessário, além, é claro, de um bom desenvolvimento do vínculo adotivo, que a família conheça as redes sociais e suas funções, que se sinta segura do relacionamento criado (ou trabalhe nela), conseguindo realmente se colocar no lugar do filho e ver o que ele precisa, e finalmente isso coloca seu filho em uma posição de acessar esse caminho com a maior consciência possível, ajudando-o a hipótese do que vai acontecer, apoiando-o no emaranhado emocional de medos e necessidades  que ele tem por dentro, procurando juntos o caminho certo.

 

O nível de ação terapêutica raramente pode envolver todo o sistema: nesses casos, o trabalho, que certamente é complexo, pode levar a novas formas de família (Edelstein, 2007). Na maioria dos casos, porém, apenas as famílias adotivas chegam à consulta psicológica, em momentos de emergência ou na rotina de uma relação pós-adoção com aqueles que acompanharam as etapas do estabelecimento familiar. Às vezes o pedido é feito diretamente pelo adotado, agora maior de idade.

Neste trabalho, o pensamento sistêmico é de fundamental ajuda para guiar a complexidade, conseguindo ver consequências e facetas e chegar a uma visão menos plana e polarizada, livre de simplificações fáceis, aceitando o inevitável desafio que a realidade nos submete e identificando soluções respeitosas de todas as pessoas envolvidas, seus sentimentos e, não menos importante, as situações complexas que as envolvem.

Finalmente, além de exigir que façamos (possivelmente bem) o que como terapeutas familiares é mais agradável para nós, esses casos nos instigam a não deixar de fora aspectos práticos, como ensinar um uso consciente das redes sociais: estas são talvez tarefas menos importante e aparentemente técnicas ou triviais, mas igualmente importantes para realmente ajudar as pessoas, de acordo com o princípio da responsabilidade terapêutica (Manfrida , 1998) ao qual respondemos àqueles que se voltam para nós e para nós mesmos.

 

 

Resumo

A disseminação massiva das redes sociais ao redor do mundo, juntamente com a crescente idade de adoção, torna cada vez mais impossível para as famílias gerenciar a busca pelos familiares biológicos de seus filhos apenas através de canais oficiais e no calendário de nossa legislação. O autor propõe algumas reflexões sobre os riscos e possibilidades associados a essas dinâmicas e os desafios aos quais as famílias devem estar preparadas para prever e governar as situações complexas e emoções poderosas que invadem a vida das crianças (e as deles) quando a adoção fechada de repente se torna aberta.

 

Palavras Chaves: adoção, pesquisa de origem, redes sociais, adoção fechada, familiares biológicos, crianças adotadas.

 

SUMMARY

The massive spread of social networks worldwide, along with the increasing adoption age, more and more often, generates a situation whereby families are unable to handle their children's search for the biological family, exclusively through official channels and in accordance with our legislation schedule. The author offers some thoughts on the risks and the opportunities directly connected to these dynamics and on the challenges on which families must be prepared to forecast and manage complex situations and the powerful emotions that burst in the children's lives (and family’s as well) when an adoption, already closed, suddenly becomes open.

 

KEYWORDS: adoption, search for origins, social networks, closed adoption, biological family, adopted children.

 

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(1)     Chiara Benini, nascida em Florença em 1977, psicóloga e psicoterapeuta, é professora do Centro de Estudos e Aplicação da Psicologia Relacional (CSAPR) de Prato, membro do Centro de Estudos de Terapia Familiar (CSTFR) e Relacional de Roma e membro da Comissão Didática da Sociedade Italiana de Psicologia e Psicoterapia Relacional (SIPPR). Há mais de 15 anos que trabalha na área das adoções, um assunto sobre o qual ela é a autora de numerosos artigos,  e co-autora dos livros “Adozioni e psicoterapia” (Adoções e psicoterapia) e “L'avventura dell'adozione” (A aventura da adoção).