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12/12/2020
Autor: Angela Hiluey
LUTO POR SUICÍDIOS. POSVENÇÃO E CUIDADOS. - Maria Julia Kovács


LUTO POR SUICÍDIOS. POSVENÇÃO E CUIDADOS.

Maria Julia Kovács (*)

Começamos este capítulo justificando a utilização do termo suicídios, no plural. Não existe o “suicídio emblemático”, que exemplificaria todos os atos suicidas. Suicídios são eventos multifatoriais, envolvendo a interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociais e ambientais. Envolvem atos intencionais que levam à morte, nos quais, a pessoa que realiza a ação é a que morre (Kovács, 2013). A definição parece simples, mas suicídios têm história complexa, cujo início nem sempre é claro e o final é a morte. Mas, como garantir que a intencionalidade do ato suicida é a busca da morte; o final do sofrimento visto como insuportável, ou a comunicação de que não está bem e que precisa de ajuda? São várias questões e as respostas estão com a pessoa; a partir da escuta do que nos diz, e não a partir de um rápido diagnóstico. Se a pessoa morre, a verdade vai com ela.

Há várias teorias que trazem compreensões diferentes sobre suicídios. As teorias sociológicas, baseadas em Durkheim (1982), buscam na sociedade fatores que podem influenciar as pessoas no ato suicida. A anomia, desorganização social são elementos que podem provocar sofrimento e o ato suicida. Kalina, Kovadloff (1983) apontam as situações tóxicas na sociedade e o fracasso dos seus principais pilares: a religião, a família e o estado.

As teorias psicodinâmicas apontam para aspectos psíquicos conscientes e inconscientes, que podem influenciar no ato suicida, no conflito entre vida e morte (Cassorla, 2004). Essa teoria está na base da ambivalência entre o desejo de morrer ou de buscar uma nova vida, embora o desfecho final possa ser a morte, como aponta Menninger (1965).

A perspectiva fenomenológica existencial, como aponta Binswanger (1977) busca compreender o suicídio, retirando desse evento, diagnósticos de patologia, entendendo que a pessoa que se mata, busca na morte uma resposta diante de uma vida com estreiteza de possibilidades. Fukumitsu (2013) apresenta a compreensão sobre o que pode estar na base de suicídios, que denominou de “morrência”, um definhar existencial, com falta de prazer na vida, o que acaba tornando a morte uma possibilidade para afastar o sofrimento.

Shneidman (1993) um dos pioneiros na área de estudos sobre suicídios traz a compreensão do suicídio como uma dor psíquica (Suicide as a psychache). Essa dor psíquica, quando intolerável, está relacionada com o ato suicida, tendo como elemento principal, a frustração das necessidades básicas do ser humano. O sofrimento existencial intenso está ligado a diversos elementos estressantes como doenças graves, perdas de pessoas significativas, separações, traições conjugais, perda de trabalho, vergonha, humilhação, desmoralização, e outras situações que causam dor psíquica. Essa dor é subjetiva, e tem sua intensidade relacionada à história de vida da pessoa, que a percebe como intolerável e contínua, não conseguindo se libertar dela. Nessas circunstâncias, algumas pessoas passam a ver o suicídio como a única saída. Essa visão limitada das possibilidades vitais foi nomeada pelo autor como “tunneling”, traduzida como visão em túnel, um estreitamento da percepção, que não permite ver outras saídas para o problema; o sofrimento é sentido como intolerável e precisa ser eliminado. Os sentimentos presentes são: vergonha, medo, angústia, humilhação, desesperança, solidão que podem em conjunto se tornar mais intensas em situação de vulnerabilidade. Os limites são subjetivos e não universais. Há momentos agudos, em que um ato impulsivo pode resultar em morte. Outros processos mais crônicos, geram comportamentos autodestrutivos. Suicídios envolvem sentimentos e ações que indicam ambivalência, em que a intenção nem sempre é de morrer; pode ser a forma de eliminar sofrimento ou buscar outra vida.

Shneidman, Farberow (1959) desenvolveram a reflexão de que a tentativa de suicídio é um pedido de ajuda, indicando uma oscilação entre vida e morte, ambivalência presente em várias teorias sobre suicídio Os autores enfatizaram que a tentativa de suicídio é uma comunicação de que algo não está bem na vida da pessoa e que não consegue ser comunicado. Denominaram de “cry for help”, um pedido de ajuda que não consegue ser verbalizado. Durante muito tempo se acreditou que as tentativas eram formas de chamar atenção, e que a pessoa que queria mesmo se matar não avisava. Os autores já alertavam que essa forma de chamar atenção aponta para o risco de tentativas recorrentes e morte por suicídio, o que explica seus números crescentes.

Aspectos psicossociais do suicídio

Há um continuum entre o desejo de morrer ocasional em função de uma situação de frustração, de grande sofrimento; o risco aumenta quando esse desejo passa a ser mais frequente até se tornar diário. O próximo passo é o planejamento para se matar, culminando com as tentativas de suicídio, únicas e recorrentes. Segundo Menninger (1965), para ocorrer o ato suicida precisam estar presentes três componentes: o desejo de matar, desejo de morrer e de ser morto. Se um dos componentes não estiver presente o ato suicida pode não levar à morte. Exemplo: a pessoa realiza o ato suicida e pede ajuda para não morrer, ou a pessoa quer morrer, mas não consegue se matar. Essas situações explicam a ambivalência e o número muito maior de tentativas em relação aos suicídios.

Há diferenças de gênero e grupos vulneráveis, os dados alertam sobre a especificidade dos cuidados. Homens se matam oito vezes mais do que as mulheres e essas tentam mais vezes do que os homens, segundo dados do Ministério da Saúde 2017 (Scavacini, 2018). A possível explicação é que as mulheres acabem buscando ajuda para seu sofrimento. Os números de suicídios têm crescido a cada ano em pessoas mais vulneráveis, demandando atenção e cuidados. Os grupos, que atualmente demandam mais atenção são os jovens, idosos, indígenas e grupos LGBTQI+. As formas de suicídio podem variar nesses grupos em função de seu sofrimento. Os jovens têm se sentido pressionados, sem perspectiva de futuro, de emprego e de realização pessoal. Muitos se queixam de tédio e vazio existencial. Nesse grupo, o número de tentativas de suicídio é maior em relação ao suicídio consumado, apontando para uma possível ambivalência entre o desejo de morrer e o desejo de “matar” um sofrimento intolerável. Por outro lado, nos idosos há um número menor de tentativas em relação à morte por suicídio, indicando maior decisão de terminar uma vida, já percebida sem sentido, muitas vezes, associada com o futuro permeado de doenças crônicas, degenerativas e com muitas limitações. Indígenas se matam enforcados porque perderam suas terras e suas tradições.

Dados do Ministério da Saúde do Brasil (2017) indicam que o suicídio é a segunda causa de morte entre jovens de 15-29 anos e tem crescido no mundo inteiro. As tentativas de suicídio têm aumentado exponencialmente entre jovens chegando a quatro ou mais eventos para cada suicídio. Entre as motivações apontadas estão a falta de perspectiva no futuro e vazio existencial, lembrando que esses são fatores de risco e não causas. Entre os idosos os suicídios têm aumentado chegando a uma taxa de 8,9 eventos por 100 mil habitantes, sendo que na população como um todo esse índice é de 5,5 por 100 mil. O suicídio de idosos tem alto grau de subnotificação e o que se observa é um número de tentativas chegando a um por um, em razão de serem eventos longamente planejados. Para essa população os fatores de risco são solidão, depressão, sensação de inutilidade da vida e a presença de doenças crônicas e degenerativas. Há uma naturalização da depressão entre pessoas de idade, que não é cuidada de forma adequada. Idosos manifestam seu desejo de morrer com dignidade e em muitos casos não são ouvidos, sendo submetidos a tratamentos que não desejam, com seu sofrimento prolongado. É o grupo mais submetido à distanásia, com sofrimento e com o processo de morte prolongado em Unidades de Terapia Intensiva. Minayo, Cavalcanti (2010) apontam que, além do suicídio não ser divulgado entre os idosos, há também outras situações que não se enquadram nos suicídios, mas levam à morte: a auto negligência e abandono dos tratamentos.

Prevenção e posvenção do suicídio

A prevenção do suicídio é tarefa importante para diminuir o número de suicídios, o imperativo da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde na organização das políticas públicas. É fundamental identificar os fatores de risco, que não são causas, mas podem influenciar no processo de auto destruição. Prevenção não significa previsão, tampouco quer dizer que, todos os suicídios serão evitados, mas, identificar os riscos ajuda, não só na diminuição dos seus números, mas também na organização dos cuidados. O Ministério de Saúde (2017) apontou os seguintes fatores de risco para o suicídio: transtornos mentais (depressão, alcoolismo, esquizofrenia), questões socio demográficas, isolamento, questões psicológicas (perdas recentes, condições clínicas impactantes, lesões com desfiguração, dor crônica, neoplasias malignas).

As cartilhas de prevenção do suicídio organizadas por várias entidades trazem sinais de alerta, que devem ser observados, pois podem indicar sofrimento psíquico, risco de comportamentos autodestrutivos e tentativas de suicídio. Entre os sinais apresentados é importante observar: o aumento de irritabilidade, apatia, tristeza e solidão, crises de choro, perda de interesse em atividades prazerosas, diminuição ou aumento do sono, diminuição ou o aumento do apetite, culpabilização excessiva, baixa autoestima, diminuição do rendimento escolar e bullying. Como vemos, são vários os sinais, mas é importante também observar mudanças repentinas de comportamento. Quando esses sinais começam surgir é importante ouvir o jovem com atenção. Ressaltamos que sinais nem sempre são percebidos, não é por falta de cuidado e sim porque podem estar camuflados ou porque sequer se manifestam.

Bertolote (2012) aponta a importância de olhar os fatores predisponentes, que não causam, mas podem influenciar no ato suicida, entre os quais: tentativas de suicídio prévias, transtornos psiquiátricos, condições clínicas incapacitantes, história familiar de suicídio, alcoolismo, transtornos psiquiátricos, estado civil, situação de trabalhos, experiências anteriores de luto, abuso sexual, alta recente de internação psiquiátrica e fácil acesso a métodos para o suicídio. Os fatores precipitantes são aqueles que ocorrem próximos ao ato suicida, que também são erroneamente vistos como causas do suicídio, embora sejam fatores estressantes, entre os quais: separações amorosas, perda de pessoas significativas, demissão, vivencias de rejeição e humilhação.

Para a identificação do risco suicida, Botega, Rapeli (2012) apresentam subsídios para entrevistas clínicas, envolvendo questões sobre ideação suicida e fatores de risco para o suicídio, com perguntas sobre intencionalidade e fatores preditivos de repetição da tentativa de suicídio. Indicam o que precisa ser investigado para o tratamento de pacientes em ambulatório.

 Há os fatores de proteção, que sempre devem ser considerados, envolvendo a família, amigos, busca de ajuda, religião e espiritualidade, que se fundamentam na transcendência, na busca do sentido de vida e do sagrado, ajudando em situações de angústia e desespero. Porém, algumas religiões podem ser muito cruéis, quando se baseiam no dogma, no pecado e na punição, aumentando a culpa e o sofrimento. Nesses casos a religião deixa de ser fator de proteção para se tornar um fator de risco.

As campanhas são ferramentas importantes na prevenção do suicídio, sendo a mais conhecida a do Setembro Amarelo. Há também o “marketing amarelo”, ao colocar a fitinha amarela em vários locais para dizer que se é adepto da prevenção do suicídio, mas sem exercer nenhuma ação. É fundamental que se pense em ações efetivas e sempre indicar locais de ajuda, como aponta Scavacini (2018). Essa campanha centra-se no mês de setembro com diversos eventos; os meios de comunicação divulgam o tema, mas, infelizmente nos outros meses volta a reinar o silêncio. A proposta é manter o assunto ativo o ano inteiro, com mini campanhas, maior engajamento e menos marketing. O principal objetivo dessa e de outras campanhas é aproximar o assunto da população, estimulando a consciência pública. São seus objetivos: abrir o diálogo e diminuir a solidão dos afetados pelos suicídios. É importante desenvolver a empatia, falar do sofrimento e favorecer a compreensão da dor e não centrar somente no imperativo de diminuir o número de suicídios.

A pandemia do Covid19 levou a um aumento significativo da ansiedade, pânico, frustração, impotência, falta de controle, conflitos familiares, sensação de morte próxima e problemas financeiros; o que faz supor também que haverá um aumento da ideação suicida. Há previsões indicando que haverá uma pandemia de saúde mental. A prevenção nessa situação é oferecer cuidados de saúde mental a quem está em grande sofrimento, atualmente online.

 Shneidman (1985) aponta a posvenção, como a possibilidade de prevenção do sofrimento que a tentativa de suicídio e a morte por suicídio provocam. Programas de prevenção tem como objetivo diminuir suicídios e os de posvenção objetivam o cuidado aos impactos do suicídio, uma prevenção do sofrimento. Os enlutados por suicídio são denominados de sobreviventes, tamanho o impacto que essa morte provoca, nos âmbitos individual, social, cultural e histórico. Para cada suicídio uma média de 5-10 pessoas são severamente afetadas pelo evento (Scavacini, 2018). Mas, a depender das circunstâncias, esse número pode ser bem maior, por exemplo, se ocorrer em local público, atingindo os presentes com intensidades de impactos diferentes, considerando, se são familiares, amigos, colegas de trabalho, de escola, pacientes, médicos, terapeutas, policiais, ou qualquer pessoa que esteja presente na situação.

A posvenção envolve práticas que ajudam enlutados a elaborar os efeitos traumáticos de um suicídio, entendidas como qualquer ato ou ajuda após o suicídio, como forma de diminuir o estresse. Para Shneidman (1993), a posvenção é a prevenção das próximas gerações, e embora tenha sido apresentada em suas obras há muitos anos, ainda é pouco conhecida no Brasil. As campanhas nacionais não mencionam o termo, o que pode resultar que enlutados não busquem cuidados para o seu sofrimento.

Luto por suicídio e suas especificidades

O luto é uma experiência universal de elaboração das mortes de pessoas, bichos de estimação ou perda de situações de vida significativas. Ao mesmo tempo, que é experiência universal, é também singular na forma como as pessoas enfrentam esse processo, que representa uma crise intensa, ao desorganizar intensamente o equilíbrio pessoal e familiar. Vários fatores influenciam o processo do luto: a relação com a pessoa perdida; natureza da ligação: (intensidade, segurança, ambivalência ou conflitos); forma da morte: repentina e violenta; antecedentes históricos, variáveis de personalidade e questões sociais (Kovács, 2007). Stroebe, Shut (2010) oferecem uma contribuição importante para compreender a elaboração do luto, apontando para a importância de oscilação entre dois estressores: elaborar a perda e os sentimentos que acompanham esse processo, legitimando a sua presença e ao mesmo tempo, ter energia e disposição para a readaptação na vida sem a pessoa querida, na perda do mundo presumido, conhecido e seguro, como aponta Parkes (1998). Atualmente, mais do que colocar ênfase nas fases do luto, é preciso observar o processo de cada pessoa na construção de significado nessa crise. Vamos agora apresentar as especificidades do processo de luto diante de uma morte violenta como é o suicídio. Trata-se de uma morte estigmatizada que apresenta dificuldades para se encontrar explicações e motivações para ela. Por ser uma morte, ainda permeada de tabus, os enlutados não têm o seu luto reconhecido.

O luto por suicídio pode se tornar complicado, pela sobrecarga psíquica de uma morte violenta e abrupta, geradora de muita culpa. Há grande dificuldade para elaborar esse sentimento, que se intenso, provoca desânimo para continuar vivendo. Essa sobrecarga é ainda mais grave, se o enlutado foi quem encontrou o corpo. Assumir as tarefas realizadas pela pessoa que se matou, provoca sofrimento porque é uma constante lembrança da ausência da pessoa querida. Não se sabe qual é a real motivação do suicídio, porque a verdade se vai com a pessoa que se mata. A culpa está sempre presente porque há o sentimento de que se podia fazer mais, ou de forma diferente, e que agora não se pode mais fazer.

Um suicídio afeta pelo menos de 5-10 pessoas, mas o número pode ser ainda maior. Segundo Candido (2011), o luto por suicídio pode se tornar complicado porque é difícil encontrar explicações, motivações para o ato, que não ficam claras, pois a história se vai com quem morreu, mesmo com cartas ou mensagens. Enlutados relatam ter se sentido abandonados, rejeitados por pessoas que acreditavam ama-los. Enlutados por suicídios podem sofrer de estresse pós-traumático, por se considerar o suicídio evento traumático, com especial cuidado ao enlutado que encontrou o corpo, por vezes, mutilado. O sofrimento é tão intenso que os enlutados por suicídio passaram a ser chamados de sobreviventes, porque a cada dia têm que lutar para continuar vivendo.

O suicídio é morte e estigmatizada porque não se aceita que a pessoa tire a sua vida, e por consequência, o enlutado também é acusado, porque não viu ou não cuidou para que a pessoa não se matasse. Candido (2011) aponta que os enlutados têm vergonha de falar sobre a morte do ente querido; diferente da situação em que a pessoa morreu por doença. Por essa razão, podem não ter o seu luto reconhecido. Esses fatores dificultam a construção do sentido de vida após a perda de uma pessoa querida, como propõe Neymeier (2001). Essa construção de sentido é importante para facilitar a construção de sentido na vida sem a pessoa querida.

O sentimento de abandono do enlutado por suicídio é intenso e a morte abrupta afeta o mundo presumido, como aponta Parkes (2009). Alguns enlutados nutrem um sentimento hostil contra a pessoa que se matou, e em seguida se sentem culpados por terem esse sentimento negativo. Assim, como as pessoas que consumam o suicídio, os enlutados têm esses sentimentos mesclados e ambivalentes. A retomada da vida sem a pessoa querida, a restauração, é muito difícil nesses casos. Um ponto importante na trajetória de luto é quando os enlutados começaram a sentir saudades da pessoa que se matou. Alguns enlutados mencionam que a ideia do suicídio passa na sua cabeça, e quando lembram do que sofreram acabam por afastar a ideia, tornando-se esse então um fator de proteção para novos suicídios.

Enlutados sentem vulnerabilidade psicológica, insegurança, desorientação, ansiedade, desamparo, raiva, questionamento existencial doloroso, ideação suicida, desestruturação familiar e pensaram também em se matar. Segundo Candido (2011), o cuidado aos sobreviventes é essencial e deveria ser oferecido sempre, porque o processo vivido é equivalente aos familiares que eles perderam. É muito importante legitimar os sentimentos e é fundamental diferenciar entre uma profunda tristeza e depressão. Os fármacos podem ajudar em várias situações, mas não devem ser usados como forma de abafar os sentimentos.

Fukumitsu (2013) realizou uma pesquisa sobre filhos de pessoas que perderam pai e mãe por suicídio e como eles elaboraram seu luto. Chegou a várias unidades de significado utilizando a abordagem fenomenológica, chegando às seguintes reflexões sobre esse trabalho, resumidas no artigo “Especificidades sobre o processo de luto frente ao suicídio” (Fukumitsu, Kovács, 2016). O suicídio é uma morte escancarada e fortemente estigmatizada, que envolve culpa e autoacusações, com o temor de repetir o ato suicida. Os temas trazidos pelos sobreviventes fundamentam aspectos importantes para o seu cuidado.

Os enlutados podem sentir que a pessoa que morreu está mais presente agora na ausência, do que quando estava viva. Em meio ao seu sofrimento, a pessoa com ideação suicida e nas tentativas, estava centrada em si e ausente para os familiares. Quando o suicídio ocorre há uma sensação de descontrole. O enlutado sente que vai morrer também, acompanhando o falecido, as emoções são fortes e ambivalentes entre as quais: culpa, raiva, vergonha, dúvidas, falta de controle da vida e necessidade de ser punido. Buscam motivações, explicações, que possam dar algum esclarecimento do porque a pessoa se matou. Ficam com a sensação de que não conheciam seu familiar e que tentam agora compreender, com dificuldades para aceitar o ato suicida.

O suicídio é considerado morte violenta, que pode ter corpos mutilados, desfigurados.  Antes do suicídio, podem ocorrer situações de muita tensão e ansiedade, principalmente quando ocorrem tentativas sucessivas. Quando ocorre o suicídio essa tensão acaba e pode sobrevir um certo alívio. Mas, esse alívio logo pode ser substituído pela ausência, culpa e autoacusações. Os enlutados por suicídio esperam que a sua vida possa voltar ao que era, sentir alívio e paz, mas, a vida depois dessa perda tão grave dificilmente será igual. Essa sensação de alívio, mesmo que rápida, causa estranheza e pode gerar ainda mais culpa, como se fosse um desrespeito ao morto, pois eles deviam estar chorando e se lamentando (Fukumitsu, 2013).

O suicídio pode gerar medo da transmissão transgeracional, observa-se que muitos dos sobreviventes têm medo de repetir o ato suicida do familiar. Quando se aproxima a idade da morte da pessoa que se matou, o enlutado fica mais ansioso pelo temor de uma repetição. Culpas e autoacusações são frequentes nos suicídios, culpa por não ter visto os sinais, nem sempre claros, por não ter cuidado ou dado a atenção demandada. Mais difícil, é quando o enlutado se considera culpado pelo sofrimento que levou ao suicídio. A culpa excessiva torna o luto por suicídio tão difícil. O terapeuta precisa escutar e legitimar esses sentimentos e, ao mesmo tempo, reafirmar a cada vez, que o suicídio é responsabilidade de quem realiza o ato suicida. A culpa massacra, cobra, dificultando a retomada da vida; surgem pensamentos recorrentes sobre a motivação do suicídio e as questões: “onde eu errei”, “o que eu não vi”, as autoacusações atormentam a mente, agindo contra a pessoa. Esse é o grande risco de adoecimento físico e psíquico do enlutado, e nos casos mais graves, pode levar a um novo suicídio.

A vida dos enlutados fica muito afetada pela ideação e tentativas de suicídio, permanecendo atentos o tempo todo, preocupados com novas tentativas tornando a sua vida um caos, antes e depois. Há uma invasão de privacidade, principalmente se o suicídio ocorrer em local público. Enlutados queixam-se que há intromissão em suas vidas, pessoas que não conhecem a família emitem opiniões sobre o que não sabem. Familiares se sentem julgados, porque não perceberam o sofrimento, ou porque não cuidaram de forma que julgam adequada. A pessoa que se matou é vista como louca, doente, provocando vergonha e remorso. Enlutados não conseguem falar do que a pessoa morreu, uma vez que o suicídio é uma morte carregada de estigma.

Durante muito tempo se avaliou que falar sobre suicídio poderia induzir as tentativas, como possibilidade de contágio, retomando o que se denomina como efeito Werther, o protagonista que se matou na obra de Goethe “Os sofrimentos do jovem Werther” [1]. Observou-se um aumento de suicídios após a leitura da obra; jovens se matavam e junto aos seus corpos, havia exemplares do livro. Havia a suposição de que a leitura do livro conduzia jovens, não correspondidos na sua história amorosa, ao suicídio. Atualmente, há um questionamento se é a leitura ou o discurso sobre o suicídio que o induz.

O que pode induzir ao suicídio é a maneira como é produzida a comunicação sobre o suicídio, com sensacionalismo, fascínio; a sociedade do espetáculo como aponta Debord (1997). Em contrapartida, o silenciamento sobre o tema não tem diminuído o número de suicídios, pelo contrário, está ocorrendo um aumento significativo nos seus índices. É preciso refletir sobre o tema, sobre o fato de não haver uma causa única para o suicídio, buscando-se o aperfeiçoamento da comunicação, sempre indicando a busca de ajuda.

Enlutados por suicídio buscam uma significação para a sua vida, da recuperação do que sofreram durante os tempos de ideação e tentativas de suicídio. Não será a mesma vida, energia psíquica será necessária para elaborar o luto por uma morte abrupta e violenta. A morte por suicídio provoca grande desorganização da família; fica difícil sobreviver a uma dor trágica, conseguir se reconciliar com a pessoa que morreu, como aponta Franco. (2010).

Fukumitsu (2013) ao refletir sobre o luto por suicídio enuncia: “quem mata quem” nesse processo, há uma dor intensa que pode levar ao desejo de morrer. Trata-se da árdua tarefa de encontrar sentido e compreensão da motivação do ato suicida. Uma pessoa se mata concretamente e acaba “matando” a vida do enlutado, que passa a ser chamado de sobrevivente, porque a cada dia tem que enfrentar o desafio de viver com essa dor tão profunda. Às vezes, a dor é tão intensa que o enlutado acaba se matando pelo grau de sofrimento, que levou ao primeiro suicídio, numa corrente sequencial. Como diz a autora a verdade vai com a pessoa que se mata.

Cuidados a pessoas enlutadas por suicídio

Uma das principais atividade da posvenção no trabalho com enlutados por suicídio, com o de mitigar o sofrimento e segundo Shneidman (1993) é a prevenção das próximas gerações. Suicídios atingem profundamente a vida de muitas pessoas, como apontamos. Fica claro que enlutados por suicídio precisam de ajuda apresentando relatos que se sentem sozinhos, que ninguém os ouve. Sentem vergonha, remorso e se auto acusam. Não tem o seu luto reconhecido, porque a sociedade os julga, considerando que são culpados, porque não perceberam os sinais de que a pessoa ia se matar. Os cuidados psicológicos devem ser baseados em empatia, escuta e compaixão. Em nenhum momento se deve oferecer respostas simplistas, com risco de equívoco, provocando ainda mais sofrimento.

Enlutados por suicídio buscam grupos de referência por acreditar que poderá ser melhor compreendido e assim não se sentir tão solitários. Assim podem compartilhar suas experiências, têm espaço para falar de seus sentimentos não reconhecidos, às vezes nem pelo próprio enlutado. É também a possibilidade de ouvir a experiência de outras pessoas e aprender com elas. Desses grupos podem surgir novas  amizades e também a possibilidade de se engajar em atividades para acolher e orientar enlutados.

O trabalho psicoterápico é essencial e todas as linhas terapêuticas são indicadas, desde que se mantenham na coerência da compreensão do processo do enlutado, ajudando na legitimação dos sentimentos, na acolhida, empatia e compaixão. É fundamental facilitar o processo também de restauração da vida, sem a pessoa querida. Como dissemos o trabalho principal é lidar com a culpa que a morte por suicídio elicita nos familiares e amigos.

A pandemia de Covid19 provoca muito sofrimento pela quebra do mundo presumido e pelo número muito grandes de mortes com rituais funerários dificultados pela não possibilidade da presença de pessoas importantes para o enlutado. Nessa perspectiva há o aumento do sofrimento psíquico, com risco de ideação e tentativas de suicídio como forma de encerrar tanto sofrimento. A não possibilidade de atendimento presencial é uma dificuldade adicional. É fundamental o incremento de recursos públicos para que as pessoas sob risco de suicídio e os enlutados por suicídio possam ter acesso a atendimentos gratuitos de qualidade (Cartilhas Fiocruz, 2020)

REFERÊNCIAS

Bertolote J. (2012). Suicídio e sua prevenção. São Paulo: Editora Unesp.

Binswanger L. (1977). El caso de Ellen West. Estudo antropológico clínica. In May R, Angel E, Ellenberger H. (Eds.) Existencia. Madrid, Gredo, 288-434.

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Botega NJ, Rapeli CB, Cais FS (2012). Comportamento suicida. In Botega JN (Org.) Prática psicológica no hospital geral. Interconsulta e emergência. Porto Alegre: Artmed.

Candido AM. (2011). Enlutamento por suicídio: elementos de compreensão na clínica da perda. Dissertação de mestrado. Brasília, Programa de Pós Graduação em Psicologia Clínica e Cultura. Instituto de Psicologia. Universidade de Brasília.

Cassorla RMS (2004). Suicídio e autodestruição humana. In Werlang BSG, Botega NJ (orgs.). Comportamento suicida. Porto Alegre: Artmed, 21-35.

Debord G. (1997). A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto.

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Franco MHP (2010). Por que estudar luto na atualidade? In Franco, M.H.P. (org.), Formação e rompimento de vínculos: o dilema das perdas na atualidade. São Paulo: Summus Editorial, 17-42.

Fukumitsu KO. (2013). Fragmentos do entre: O processo de luto do filho da pessoa que cometeu suicídio. São Paulo: Digital Publish & Press.

Fukumitsu KO, Kovács MJ. (2016). Especificidades sobre o processo de luto frente ao suicídio. Psico (PUCRS), 47 (1), 3-17.

Kalina E, Kovadloff S. (1983). Cerimonias da destruição. Rio de Janeiro: Francisco Alves.

Kovács MJ (2013). Revisão crítica sobre conflitos éticos envolvidos na situação de suicídio. Psicologia: Teoria e Prática (Impresso), v.15, 69-85.

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Menninger K.  (1965). Eros e Thanatos. O homem contra si próprio. São Paulo: Ibrasa.

Minayo MCS, Cavalcante F. (2010). Suicídio em pessoas idosas: revisão de literatura. Revista de Saúde Pública,  v.44: 750-757.

Ministério da Saúde. Fiocruz. Fundação Oswaldo Cruz. (2020) Cartilha: Saúde mental e atenção psicossocial na Pandemia Covid19. Luto, Brasília: Fundação Oswaldo Cruz.

Ministério da Saúde. Fiocruz. Fundação Oswaldo Cruz. (2020) Cartilha: Saúde mental e atenção psicossocial na Pandemia Covid19. Suicídio. Brasília: Fundação Oswaldo Cruz.

Neymeier R. (2001).  Meaning Reconstruction and the experience of loss. Washington DC: American Psychological Association.

Parkes CM. (1998). Luto. Estudos sobre a perda na vida adulta. São Paulo: Summus.

Parkes CM. (2009) Amor e Perda: as raízes do luto e suas complicações. São Paulo: Summus. 39 -52.

Scavacini, K. (2018). O suicídio é um problema de todos: a consciência, a competência e o diálogo na prevenção e posvenção do suicídio. Tese de doutorado. São Paulo. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano. Instituto de Psicologia USP.

Shneidman ES (1993) Suicide as Psychache: A clinical approach to self-destructive behavior. London: Jason Aronson.

Shneidman E, Farberow  NL. (1959). Suicide and death. In Feiffel H. (Org.) New meanings of death. New York: Mc Graw Hill.

Stroebe M, Schut H. (2010). The dual process model of coping with bereavement: a decade on. Omega (Westport).

 

(*) Profa. Dra. Maria Julia Kovács- Professora sênior do Instituto de Psicologia da USP. Membro fundador do Laboratório de Estudos sobre a Morte.

Coordenadora do Projeto Falando de Morte. Filmes didáticos. Membro do Comitê de Psicologia da Academia Nacional de Cuidados Paliativos. Membro do Comitê de Saúde Emocional do Instituto Oncoguia. Professora Livre Docente do Instituto de Psicologia da USP.



[1] Goethe, ... Os sofrimentos do jovem Werther