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23/03/2021
Autor: Angela Hiluey
Análise de filme: Por que você não chora? - Odelis Basile


(Originalmente foi publicada no Gesto Espontâneo – psicanálise e cultura www.gestoespontaneo.com.br


Por que você não chora?

Odelis Basile (*)

Assisti o longa-metragem brasiliense que concorre ao prêmio Kikito no Festival de Cinema de Gramado, 2020 “Porque você não chora?” (2020), de Cibele do Amaral. O filme trata, principalmente, da questão do suicídio e da formação do psicólogo.

A trama do filme se passa entre a personagem Bárbara, uma mulher explosiva, com Transtorno de Personalidade Borderline, e a estagiária de psicologia, Jéssica, sua Acompanhante Terapêutica; uma mulher introspectiva que tenta driblar calada seu sentimento de solidão e abandono.

O filme relata a relação que se estabeleceu entre elas e os questionamentos que esta relação produziu em cada uma delas. A fragilidade e o sofrimento psíquico, diante das perdas e frustrações, é intrínseco a nossa condição humana. Porém, se somos acolhidos e sustentados pelo ambiente na nossa dor, faz muita diferença no nosso viver criativo.

Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, separa a noção de criação e de obras de arte. Criações são uma pintura, uma música, uma refeição preparada em casa, o cuidado com o jardim entre outras. Mas ele se refere à criação que é universal e faz parte do estar vivo. É o modo como o indivíduo aborda a realidade externa e como ele se torna protagonista da sua vida. Crescer como ser humano que se sente vivendo realmente a sua própria vida, com o caminhar autêntico.

No filme, as duas mulheres sofreram dificuldades no cuidado materno desde a mais tenra idade. Segundo Winnicott, o holding é uma das funções da “mãe suficientemente boa”. Ela contém, aguenta, resiste e apoia o bebê frente às ansiedades que ele vive. São os cuidados essenciais para o desenvolvimento saudável da criança. Bárbara foi abandonada pela mãe e Jéssica apresenta uma mãe pouco responsiva, que tem a comunicação com palavras ou gestos entre elas totalmente truncada. Como diz Winnicott, ocorreu um fracasso no estabelecimento da capacidade pessoal para a vida criativa.

Bárbara tem um filho e por ele luta para estar viva e manter seu vínculo com ele.

Jéssica, por outro lado, encontra-se no extremo da submissão, onde sente sua vida como insatisfatória e não pode se enriquecer por meio das experiências que vive. Assim, nada tem de relevante no viver de Jéssica. Tudo está oculto e não dá sinais de existência. Apenas ela se sente impotente diante da realidade porque seu mundo interno é povoado por sombras de medo e desamparo vividas desde a mais tenra infância.

Chama a atenção no filme a pouca fala de Jéssica, seu desamparo frente à vida, sua solidão, sua falta de relações afetivas e o seu desconhecimento do outro. Ela cuida de uma irmã que estima, mas não sabe o que sente em relação a ela mesma e também em relação à irmã.

O relacionamento de Bárbara com Jéssica traz à tona o sofrimento psíquico que ela ignorava e, assim, se mantinha calada. Agora, esses sentimentos permeiam seus sonhos e a assustam.

Jéssica, apesar de ter sido orientada por sua supervisora para fazer psicoterapia, decide não fazer e, assim, se deixa dominar por esse sofrimento reeditado e potencializado pelo seu relacionamento com Bárbara.

Olhando o filme por outro vértice, ele dá ênfase à importância para a formação do psicólogo, o estudo teórico, a supervisão clínica e a psicoterapia, que é um recurso, não só para a elaboração das próprias limitações e potencialidades mas, também, para a internalização da teoria e da prática clínica.

É um bom filme que trata do sentimento de não pertencimento, da solidão, do desamparo e da importância do olhar do outro para que o indivíduo possa ter um viver criativo.

(*) psicóloga pedagoga e psicanalista. Especialista em psicoterapia psicanalítica pela USP-SP, especialista em psicoterapia psicodinâmica com base psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae - São Paulo.