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23/03/2021
Autor: Angela Hiluey
Artigo: Quando o paciente de minoria racial encontra o terapeuta branco - Thaise Mendes Farias e Fernanda Barcellos Serralia


Quando o paciente de minoria racial encontra o terapeuta branco: microagressões raciais e competência multicultural em psicoterapia

 

Thaíse Mendes Farias – Psicóloga, Doutoranda em Psicologia (UNISINOS). Membro do Laboratório de Estudos em Psicopatologia e Psicoterapia (LAEPSI) do PPG em Psicologia da UNISINOS. Coordenadora do Núcleo de Processos Clínicos e Psicossociais da Subsede Sul do Conselho Regional de Psicologia do RS.

Fernanda Barcellos Serralta - Psicóloga, Doutora em Ciências Médias: Psiquiatria (UFRGS). Coordenadora do Laboratório de Estudos em Psicopatologia e Psicoterapia (LAEPSI), professora e pesquisadora do Programa de Pós Graduação em Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), RS.

 

Num passado não muito distante, raça era um termo cientificamente usado para classificar a variabilidade humana segundo, principalmente, o tom de pele - além de outras categorias morfológicas e químicas, como formato do crânio, nariz, queixo, tipo sanguíneo, doenças hereditárias. O aprofundamento dos estudos biológicos e genéticos levou os pesquisadores à conclusão de que o conceito carece de suporte científico (Munanga, 2010).   Entretanto, a ideia de raça ainda exerce um impacto concreto na vida de minorias raciais, ao alicerçar um modo de vista e ação negativos com base no fenótipo dos membros destes grupos. 

Miranda (2013) sugere que o  racismo pode ser compreendido à luz da corrente psicanalítica das relações objetais como relacionado à posição esquizoparanoide, cujas características centrais são a utilização de mecanismos primitivos, como a projeção, cisão, e identificação projetiva, para separar aspectos bons e maus, e assim buscar proteger-se dos perigos. No modelo, tais perigos decorrem, principalmente, da ação das próprias tendências destrutivas do psiquismo. Nesse sentido, o racismo operaria numa lógica primitiva em que ao “outro”, os sujeitos das minorias raciais estariam cheios de “coisas ruins”, como se não fossem suficientemente humanos, e sim figuras anômalas, ruins, perigosas e ameaçadoras. Por outro lado, a negação e a onipotência apoiariam o senso de “paranoia”, permitindo a representação de si mesmo como “totalmente bom”.  Assim, na construção da raça via processo soturno de realidade defensiva, o sujeito branco apaga a subjetividade do preto e do pardo (Altman, 2009), retirando a sua humanidade.

Atualmente, com a moralização e tipificação criminal de algumas atitudes racistas, cada vez mais interiorizamos a ideia de que o racismo é uma forma de desumanização, uma violência e um posicionamento/atitude repreensível. Porém, ainda somos atravessados por uma lógica racista e edificados para compreender “o outro”, da raça “inferior”, como um inimigo e, dessa forma, podemos reproduzir e perpetuar o racismo, ainda que inconscientemente.

Nesse artigo refletimos sobre o fenômeno do racismo em microescala, as chamadas microagressões raciais (Sue et al., 2007), a sua expressão na clínica e a necessidade de desenvolver competências multiculturais entre psicoterapeutas. Pesquisas indicam que as pessoas de minorias raciais sofrem mais de problemas de saúde mental e física em comparação com as brancas, tendo-se percebido que a discriminação é associada a resultados negativos na saúde física e mental (Smolen & Araújo, 2017). Entretanto, no Brasil, o campo das questões raciais ainda é pouco explorado nos seus mais diversos âmbitos, e, especialmente, no que diz respeito aos efeitos do racismo sobre a saúde mental (Tavares & Kuratani, 2019).  Esta é uma lacuna teórica e prática relevante, pois, se o terapeuta não pode ou não quer reconhecer o racismo como produtor de adoecimento, ele pode estar contribuindo para a manutenção das discriminações decorrentes do preconceito e da discriminação racial, aumentando o sofrimento psíquico de seus pacientes.

A literatura indica que a discriminação racial estrutural é associada a problemas de raça, poder, privilégio, idioma e sensibilidade cultural, podendo influenciar o relacionamento da díade paciente-terapeuta. Existem marcadores visíveis de diferenças nos pares terapêuticos (gênero, idade, classe social), sendo a raça e a etnia consideradas marcadores especialmente salientes tanto para o cliente quanto para o terapeuta. Apesar dos inúmeros aspectos positivos advindos do aumento do contato inter-racial, pesquisas têm descrito o desconforto com que terapeutas brancos têm lidado com as diferenças raciais, comparadas a outras diferenças sociodemográficas (Chang & Berck, 2009).

As microagressões raciais são agressões sutis, muitas vezes inconscientes, que psicoterapeutas perpetram contra os pacientes das chamadas minorias raciais (negros, indígenas etc.). Podem ser expressas como microataques (comportamentos inconscientes, inclusive verbais, que depreciam herança racial de uma pessoa), microinsultos (atitudes racistas conscientes e explícitas, porém frequentemente não reconhecidas como racistas pelos perpetuadores) e microinvalidações (comportamentos inconscientes que negam ou minimizam as realidades vividas pelas minorias raciais)  (Wong et al., 2014). Tais agressões são tão difundidas e automáticas nas conversas e interações diárias que geralmente são dispensadas e encobertas como sendo inocentes e inócuas. No entanto, são prejudiciais porque causam sofrimento (Sue et al., 2007), podendo produzir iatrogenias.

Diversos autores (Constantine, 2007; Miranda, 2013; Tao et al., 2015, Okosi, 2018) tem se ocupado em elucidar como as microagressões podem operar nas sessões de psicoterapia, por meio do exame da percepção dos pacientes que sofreram microagressões raciais de seus terapeutas. Com base nas categorias desses estudos, elencamos alguns dos modos pelos quais psicoterapeutas podem agredir pacientes culturalmente distintos de si: cegueira racial (negação das experiências raciais/culturais suas e do paciente), patologização de valores culturais e imposição de estilo comunicação (quando terapeuta impõe seu conjunto de valores, transformando em anomalia os valores culturais e formas de comunicação do paciente), atribuição de descapacidades (questionamento de inteligência ou competência, estabelecimentos de rótulos intelectuais com base na raça do paciente), suposição de superioridade (generalização das experiências de pessoas não brancas, tratando-as como um “pacote de problemas” por causa da sua raça), invisibilidade (indicadores verbais e não verbais da falta de conexão e compreensão que ensejam rupturas precoces do processo), estrangeirização (comentários que comunicam um senso de "outro", de separação).

Nessa perspectiva, poderia se inferir que psicoterapeutas que não exploram os seus próprios preconceitos e falham em compreender como as questões raciais e culturais influenciam o processo terapêutico, não irão trabalhar de forma razoável (ou suficientemente terapêutica) as experiências de preconceito e discriminação vividas pelos seus pacientes de minorias raciais e/ou culturais. Esta reprodução do estranhamento, do preconceito e do racismo, expressa, de modo velado e não consciente, nas múltiplas formas de microagressões  já referidas muito possivelmente poderia conduzir o processo terapêutico a impasses, rupturas e interrupções prematuras. Aliás, estudos internacionais sugerem que pacientes que procuram um terapeuta de raça ou etnia diferentes tem maior probabilidade de abandonar o tratamento e comparecer a menos sessões, em comparação com aqueles cujos terapeutas compartilham cultura e origens étnicas (Chang & Berk, 2009).

Entretanto, nem toda a psicoterapia que envolve o terapeuta branco e o paciente de minoria racial é fracassada. Nas díades inter-raciais bem sucedidas, fatores que aparecem são a forte aliança terapêutica, consideração positiva incondicional, congruência, validação, capacidade de resposta às necessidades expressas, revelação da história pessoal, capacidade do cliente e do terapeuta de comunicar e negociar rupturas no relacionamento, compreensão dos problemas dentro de um contexto sociopolítico maior – o que pode exigir atenção e adaptação flexível de habilidades básicas de terapia (Hook et al, 2016; Mosher et al., 2017).

A competência multicultural é essencial ao psicoterapeuta. O conceito refere à habilidade deste profissional para trabalhar efetivamente entre culturas e identidades, adaptando sua prática às identidades culturais diversas dos seus clientes (Watkins et al., 2009). Assim, nosso entendimento como clínicas e pesquisadoras é de que para melhorar a qualidade dos serviços psicológicos e também para contribuir para o combate ao racismo e outras formas de preconceito é necessário preparar os alunos e profissionais “psi”, auxiliando-os a desenvolver abertura, humildade e conforto diante das diferenças étnicas e culturais, reconhecendo sua riqueza e também seus entraves, e assim ampliando a capacidade de escuta sensível e qualificada  nas situações que envolvam tais diferenças.

 

Referências

 

Altman, N. (2009). The analyst in the inner city: Race, class, and culture through a psychoanalytic lens (2nd ed). New York: Taylor and Francis.

Chang, D.F., Berk, A. (2009) Making cross-racial therapy work: A phenomenological study of clients' experiences of cross-racial therapy. Journal of Counseling Psychology, Oct;56(4):521-536.

Constantine, M. G. (2007). Racial microaggressions against African American clients in cross-racial counseling relationships. Journal of Counseling Psychology, 54(1), 1–16.

Hook, J. N., Farrell, J. E., Davis, D. E., DeBlaere, C., Van Tongeren, D. R., & Utsey, S. O. (2016). Cultural humility and racial microaggressions in counseling. Journal of Counseling Psychology, 63(3), 269–277.

Miranda, K. (2013).  Racial microaggressions and the therapeutic encounter: a qualitative study on the exploration of the intersection in a cross-racial dyad with white clinicians and clients who are second generation asian and latina american women of color. Tese de doutorado, University of Pennsylvania. ScholarlyCommons.  Philadelphia, 143p.

Mosher, D. K., Hook, J. N., Captari, L. E., Davis, D. E., DeBlaere, C., & Owen, J. (2017). Cultural humility: A therapeutic framework for engaging diverse clients. Practice Innovations, 2(4), 221–233.

Munanga, K. (2010) Teoria social e relações raciais no brasil contemporâneo. .In: Cadernos PENSEB: discussões sobre o negro na contemporaneidade e suas demandas. Periódico do Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira – FEUFF (n. 12).

Okosi, M.J. (2018) The impact of racial microaggressions on therapeutic relationships with people of color. Tese de doutorado, Rutgers University; Graduate School of Applied and Professional Psychology,  State University of New Jersey, New Brunswick, New Jersey, United States of America.

Smolen, J. R., & Araújo, E. M. (2017). Raça/cor da pele e transtornos mentais no Brasil: uma revisão sistemática. Ciência & Saúde Coletiva, 22(12), 4021-4030.

Sue, D. W., Capodilupo, C. M., Torino, G. C., Bucceri, J. M., Holder, A. M. B., Nadal, K. L., & Esquilin, M. (2007). Racial microaggressions in everyday life: Implications for clinical practice. American Psychologist, 62(4), 271–286.

Tavares, J. S. C., & Kuratani, S. M. A. (2019). Manejo Clínico das Repercussões do Racismo entre Mulheres que se “Tornaram Negras”. Psicologia: Ciência e Profissão, 39, e184764. Epub June 27, 2019.

Tao, K. W., Owen, J., Pace, B. T., & Imel, Z. E. (2015). A meta-analysis of multicultural competencies and psychotherapy process and outcome. Journal of counseling psychology, 62(3), 337–350.

Watkins Jr, C. E., Hook, J. N., Owen, J., DeBlaere, C., Davis, D. E., & Van Tongeren, D. R. (2019). Multicultural orientation in psychotherapy supervision: Cultural humility, cultural comfort, and cultural opportunities. American journal of psychotherapy, 72(2), 38-46.

Wong, G., Derthick, A. O., David, E. J. R., Saw, A., & Okazaki, S. (2014). The what, the why, and the how: A review of racial microaggressions research in psychology. Race and Social Problems, 6(2), 181–200.