Artigos


30/10/2021
Autor: Angela Hiluey
Ideias circulantes no II Seminário Nacional Interativo Virtual (27 e 28 de agosto de 2021)

Ideias circulantes no II Seminário Nacional Interativo Virtual – dia 27 de agosto de 2021

Por Waldemar José Fernandes


Boa tarde a todos

Quero lembrar que sou médico especializado em psiquiatria e área de atuação em psicoterapia. Como tal, quero felicitar os psicólogos pelos 59 anos de profissão e desejar que tenham grande evolução, e que possam manter a integração importante e necessária com a psiquiatria e a medicina em geral.

Vamos ao dia de ontem:

Tivemos a cerimônia de abertura do II Seminário Nacional Interativo Virtual ABRAP, com saudações e comentários introdutórios por parte de Angela e Marluce.

A seguir, uma excelente conferência do Dr. Héctor Fernández Álvarez - sobre O futuro da Psicoterapia.

Em sua exposição, iniciou com instigante indagação: onde está a psicoterapia hoje?

Fez, então, um breve levantamento histórico, em que mostrou que nos inícios, existiu grande resistência a essa atividade, seguida de desenvolvimento extraordinário, pois há em vária partes do mundo tendência a expandir seu estudo e sua prática nos dias atuais.

Foram lembradas ações da OMS e da IAPT - Improving Access to Psychological Therapies - um programa nacional de disseminação para fornecimento de tratamentos psicológicos no Reino Unido. O Na conferência foi lembrado que, nessas instituições, a atividade psicoterápica tem sido considerada fundamental na prevenção e tratamento em problemas médicos em geral assim como na Saúde Mental.

Desde Freud a psicoterapia ficou basicamente no campo médico, mas desde 1950 a psicologia é que aparece mais ligada com as psicoterapias. Até hoje muitos profissionais praticam alguma forma de psicoterapia, com formação ou não. Infelizmente não é uma profissão regulamentada no Brasil.

Dr. Hector mostrou efeitos benéficos dessa atividade, tais como melhora de sintomas, reorganização pessoal referente à personalidade, e, principalmente, na melhoria da qualidade de vida.

Como efeitos maléficos, enfatizou o fato de que muitos psicólogos parecem desejar que os pacientes não tenham nenhum sofrimento, procurando exageradamente o alívio de qualquer mal-estar. Talvez uma das razões de psicólogos indicarem medicação, e, em alguns países, até receitarem, mesmo.

Lembrou das enormes diferenças que a COVID 19 veio a trazer, e como isso já influencia e deverá influenciar o trabalho futuro, seja na abordagem com mais tecnologia, e apoio, assim como de acompanhamento aos pacientes com maior frequência.

Propôs ainda maior integração com a psicofarmacoterapia, com as neurociências, e mais investigação na área das psicoterapias.

Após a conferência e discussão sobre os temas abordados, tivemos apresentações de trabalhos que passo a enumerar: - 1) “Alterações na psicoterapia psicanalítica com base na psicanálise produzida nas últimas 4 décadas”, pelo Prof. Dr. Wilson de Campos Vieira; 2) “Aplicações clínicas da teoria polivagal na terapia do trauma: Somatic-Memory-Systems”, pela Especialista Ana Patrícia de Sá Peixoto; 3) “A desafiadora interdisciplinaridade na clínica”, pela Dra. Isabela Dietrichkeit; e, ainda (4), “Influência da transgeracionalidade em gestantes primigestas”, apresentado pela Profa mestra Raquel Marques Guirado.

Devido à riqueza das apresentações e nosso tempo escasso, vou apenas dizer que:

  • Debateu-se sobre o maior resultado de uma pesquisa, que foi enriquecer conhecimentos para prática em consultório, propiciando um processo terapêutico com maior clareza e acolhimento.
  • Discutiu-se a respeito do estabelecimento de relações entre diferentes áreas do conhecimento, como - saúde mental, psicologia, psiquiatria, educação e assistência social, sempre vinculadas nos cuidados aos pacientes ou famílias.
  • Foi utilizada a metáfora de se navegar juntos, e escutar os sinais emitidos pelo sistema nervoso, sendo apresentado um caso clínico.
  • Foi lembrada a produção psicanalítica depois de Lacan, e as linhas diversas, que vinham desde Freud, sendo que, o autor pondera que deram lugar a uma psicanálise mais homogênea na Europa e USA, com valorização da relação de objeto, relação interpessoal e modelos operantes. Tais ideias foram apresentadas e discutidas com interesse.

 

Mais tarde, foi apresentado tema de Odelís Basile, sobre o que chamou de Equilíbrio Instável. Seguiu-se apresentação de Solange Emílio, sobre Psicoterapia de grupo e psicoterapia em grupo, assim como grupos que ocorrem nas instituições, e o trabalho psicoterápico ou de reflexão, da instituição em si. A terceira e última apresentação foi de Angela Hiluey, discorrendo sobre “Ser, pensar e fazer – em psicoterapia de casal e família...”.

Observou-se grande integração entre os temas, sendo que vimos que o equilíbrio  instável é algo que afeta pacientes e psicoterapeutas, pois é necessário conter a angústia e trabalhar com as angústias dos pacientes e dos terapeutas, pois não há como eliminar tal sofrimento, nem os pensamentos que provocam pânico. Importante é ajudar a pensar sobre eles, e não em extirpá-los. Criatividade também foi muito discutida nos 3 trabalhos, assim como sobre ter de se lidar com frustrações e com o inesperado, tarefa difícil que envolve o vínculo paciente terapeuta.

Ênfase - é necessário metabolizar os afetos.

Nas 3 apresentações foi ressaltada a necessidade de um candidato a psicoterapeuta ser uma pessoa com características pessoais que favoreçam essa atividade, além de capacidade intuitiva e desejo de ajudar. É absolutamente indispensável uma boa formação.

Nesse sentido ainda vale o tripé: análise pessoal estudo teórico e supervisão. Na contribuição de Solange foi acrescentada a importância dos Grupos Psicanalíticos de Reflexão, dispositivos em que os interessados em se tornarem psicoterapeutas discutem e convivem com seus pares, sem um tema fixo. Podem, então, se aprimorar na arte de pensar e de aprender com a experiência. 

Particularmente no trabalho da Angela, foi discutido sobre não desejar, nem procurar unir o casal, nem forçar condutas que sejam utilizadas ou valorizadas pelo terapeuta, mas sim, estudar como se relacionam e o que pretendem fazer com suas diferenças e com os mal-entendidos.

Para finalizar, posso dizer que foi um dia bem proveitoso, e que, em todas as atividades do dia se valorizou a necessidade de uma boa formação para psicoterapeutas.


As ideias circulantes no II Seminário Nacional Interativo Virtual - dia 28 de agosto de 2021.

Por Angela Hiluey

 

A oportunidade de compartilhar as ideias que emergiram em mim nessa manhã e início de tarde do dia 28 de agosto de 2021 certamente que são um modesto recorte diante da magnitude da contribuição ofertada pelos autores, autoras, moderadores e moderadoras que durante esse tempo estiveram conosco.

No início da manhã tivemos uma apresentação de trabalhos inscritos contando com a moderação da Profa. Dra. Ivonise Fernandes da Motta e do Espec. Gustavo Lacatus.

Os trabalhos apresentados foram intitulados: A atribuição de intensidade e significado na abordagem resiliente; Modelos de Crenças Determinantes (MCDs) do comportamenteo resiliente na Clínica Psicológica; A abordagem resiliente como referencial de pesquisas clínicas em psicoterapia no campo da resiliência e que são de autoria de: Prof. Dr. George Barbosa; Profa. Dra. Rosana T.S. Rodrigues; Psic. Thatiana G. Fraga; Psic. Stefanie C. Siqueira.

A Psic. Thatiana apresentou o primeiro trabalho nomeado aqui, a Psic. Stefanie o segundo e a Dra. Rosana e o Dr. George apresentaram o terceiro trabalho.

A ordem de apresentação dos trabalhos permitiu que o público acompanhasse as apresentações por  contarmos com as informações que sucessivamente eram apresentadas e que favoreciam a compreensão mesmo quando não se conhecia o modelo de referência dos apresentadores. 

Pode-se visualizar por meio dessas apresentações a relevância de uma abordagem nova que atenda a necessidade de contarmos com abordagens breves para uma população específica. Ao mesmo tempo foi-nos apresentada tanto a metodologia dessa psicoterapia bem como os dados da pesquisa que estão realizando para assegurar a cientificidade dessa abordagem intitulada por abordagem resiliente.

Tais trabalhos permitem, segundo minha perspectiva, que seja mobilizada uma ideia circulante relativa a importância de conhecermos outros modelos teóricos bem como conhecermos os alinhamentos desses modelos com a situação para a qual são propostos e quais os resultados decorrentes de tal proposta. Conforme a moderação dessas apresentações considerou, mesmo quando se atua segundo outro modelo teórico que era o caso da moderação, seu modelo se enriquece a partir das explanações escutadas. 

Ou seja a união entre psicoterapeutas de diferentes modelos teóricos é enriquecedora.

A Dra. Arianne Monteiro Melo Angeleli apresentou o trabalho intitulado "Cuidando do pai: a construção das pontes da paternalidade" escrito em co-autoria com Elisa Maria de Ulhoa Cintra.

Tivemos a oportunidade de autenticamente sermos encaminhados para pensar o pai, pensar sobre relações. A Dra. Arianne incluiu o/a psicoterapeuta no processo psicoterapêutico ao longo de sua exposição mostrando que uma intervenção precisa se basear no que o outro necessita e portanto o profissional precisa se conhecer muito bem para se envolver com quem lhe busca. 

Em seu trabalho vem se ocupando de mostrar realmente muitos desdobramentos sobre a figura paterna tão mencionada e tão pouco desvelada. Aqui se encontra uma ideia circulante: fazer pesquisa e consumir as pesquisas já existentes.

A partir de sua apresentação, segundo minha perspectiva, uma outra ideia circulante é sobre levar bem a sério o tema da formação para o exercício em psicoterapia quando utilizou até mesmo o que se segue: saiba no vespeiro que está pondo a mão e para isso esteja preparado. E para sustentar tal ideia circulante pode-se considerar, também que ainda ressaltou a Dra. Arianne:

- a relevância de se escutar ao longo da formação quem é mais experiente, para se aprender com eles/elas.

- a importância dos escritos iniciais realizados por um futuro psicoterapeuta e que o acompanham e vão sendo ajustados até tomarem uma forma que explicite melhor as ideias desse(a) autor(a) num dado momento de sua jornada.

Nossa manhã contou com um olhar afetuoso trocado entre os presentes bem como o mesmo olhar afetuoso foi dirigido a nossas dificuldades e desafios que nos aguardam.

Seguimos para o início da tarde quando então a moderação ficou sob a responsabilidade da Espec. Maria Clara Nassif e a Espec. Beatriz Silverio Fernandes.

Nesse tempo contamos com a Profa. Dra. Silvia Renata Lordello que nos apresentou o trabalho intitulado- Quando a pesquisa une psicoterapia e demandas sociais: propostas e perspectivas; com a Profa. Dra. Glaucia M. A. Rocha que nos apresentou o trabalho intitulado: Ciência e arte na prática da psicoterapia; com o Prof. Dr. Tales Vilela Santeiro que nos apresentou o trabalho intitulado- Processo de pesquisa e(m) grupos: brincar aprender pensar.

Faz-se novamente verdade que modestamente destacarei as ideias mobilizadas em mim que são um recorte modesto por eu ter podido usufruir desse momento com esses estimulantes psicoterapeutas e pesquisadores. Possivelmente com o passar do tempo o que semearam esses apresentadores em mim surgirá e poderei quem sabe até vir a lhes contar.

Permitiram esses autores que visualizássemos suas propostas investigativas enquanto visualizamos que os contextos socioculturais são considerados tanto nas práticas psicoterapêuticas como nas pesquisas. 

Muitas vezes segue circulando a ideia de que a psicoterapia não leva em conta os contextos específicos de cada pessoa atendida em psicoterapia. Tais apresentações mostram algo diverso de tal ideia. Pode-se até conhecer a recente parceria entre o SUS e a UnB quando se unirá a prática à pesquisa na qual se encontra a Dra. Silvia.

Essas vozes mostrando que o atendimento psicoterapêutico não acontece vagando pelo espaço sideral já vinham sendo escutadas desde o dia 27 de agosto em nosso Seminário. Que possam ser compartilhadas em muitos outros espaços.

A seriedade de uma formação para o exercício da psicoterapia é uma ideia circulante que se faz reforçada por essa apresentação quando o Dr. Tales inclusive nos apresenta estratégias utilizadas para favorecer a promoção do aprender pensar através do brincar.

Esse pensar que nos tempos atuais está tão esquecido.

As moderadoras com sua dedicação à pesquisa e editoração puderam até mesmo favorecer um diálogo focando o tipo de publicação de pesquisa que poderia mobilizar a leitura uma vez que consumir e fazer pesquisa se mostra tão necessário.

Arte e Ciência em psicoterapia foi o nosso contexto nesses dois últimos dias: 27 e 28 de agosto/2021.

O registro através de palavras circundantes poderá ser levado conosco e relido em diferentes momentos da vida.

Iremos agora aos momentos que nos aproximam desse final de II Seminário Nacional Interativo Virtual escutando o Psicoterapeuta Matteo Selvini e as Psicoterapeutas Iraní Tomiatto de Oliveira e Christina Neder.

Fica a conscientização até esse momento presente sobre a importância de uma formação continuada e muitos elementos temos a partir das apresentações realizadas sobre o que deve estar implicado para conseguirmos uma formação qualificada.

Deixo-lhes um escrito que se encontra em um livro de Rubem Alves que pode inspirar novas ideias.

Aqui segue:

(...) O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: "Se eu fosse você". A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção. 

                            Rubem Alves, O amor que acende a Lua, 1999.