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10/10/2022
Autor: Dr. George Barbosa
Celebração do Dia Mundial da Saúde Mental
Em 10 de outubro celebramos o Dia Internacional da Saúde Mental. Este tema sempre esteve presente em minha vida.

Introdução

Em 10 de outubro celebramos o Dia Internacional da Saúde Mental. Este tema sempre esteve presente em minha vida.

Primeiro, meus dois avós tiveram, nos últimos anos, implicados em saúde mental. Diz a lenda que meu avô paterno, um negro que, ao final da vida, se tornou andarilho, envolvido com religiões místicas. Já meu avô materno, um homem branco, faleceu de grande depressão e acentuados distúrbios de humor. Minha avó materna, faleceu no início da 3ª idade com alterações significativas de pensamento, prejuízo elevado na memória, com implicações comportamentais e alterações de humor devidos a grave demência. 

Nesta genealogia, quem se salvou foi minha avó paterna, que morreu de velhice. 

Minha mãe é viva e muito esperta (por vezes, até demais ...) e meu pai acaba de falecer aos noventa e oito anos. Homem maravilhoso e lúcido até o último momento. Por isso digo que Saúde Mental sempre esteve presente em minhas considerações pessoais.

De minha parte, bem ... só para resumir, tenho dificuldades absurdas com interações sociais e um déficit de atenção que, por vezes, me faz esquecer de que lugar do shopping deixei o carro. Ou quando me esqueço de que saí de carro, e já estou chamando o UBER e indo embora ... sem ele.

Saúde Mental me encantou quando, jovem, iniciei minha carreira como pedagogo e me vi envolvido com as proposições de Piaget, Pestalozzi, Waldorf, Vygotsky e Freire. Depois, na Psicologia, compreendi que Saúde Mental implicava em pensamentos, ideias, emoções e sentimentos em equilíbrio. Diz respeito à forma como uma pessoa reage às exigências, às demandas, desafios, adversidades e mudanças que surgem na vida (e se refere também ao modo como uma pessoa trabalha para harmonizar seu universo cognitivo.

A atuação no campo da Saúde fez crescer em mim o entendimento de que Saúde Mental deveria ser uma garantia de direitos da população em geral. Passei a entender que estas garantias envolvem a proteção a perdas, como do trabalho, da família e de amigos. É impressionante como a perda da condição de trabalhador em uma pessoa, afeta sua condição de cidadã. A precariedade e instabilidade no âmbito do trabalho, corrói a saúde e a esperança de viver. 

Esta foi, provavelmente, a principal motivação, junto com a história da saúde de minha família, que mais inspirou a minha dedicação ao campo da resiliência humana, tanto no consultório clínico, quanto na atuação como pesquisador.  

A resiliência é uma forma nobre de garantir os aspectos da Saúde Mental.

Entendo que Saúde Mental carrega em si dois temas antagônicos. O aspecto da Luta/Resistência e o da Resiliência.

A Luta/Resistência é necessária para fazer acontecer as leis, as ações e as iniciativas em prol da Saúde Mental. Porém, quando vivida de modo isolado, tanto a luta, quanto a resistência traz danos consideráveis à saúde, como elevadíssimos níveis de estresse no organismo. A dinâmica da Luta/Resistência pede e exige Resiliência. E Resiliência é a arte de se organizar nos pensamentos, nas emoções, nos sentimentos e nos comportamentos de modo estratégico, aprendendo a lidar com as adversidades ao buscar um lugar ou estado de equilíbrio. A Luta/ Resistência necessita de determinação, garra, energia. Já a Resiliência requer estratégias, ora de avanço, ora de fuga e, por vezes, de se permanecer no mesmo lugar.

Embora antagônicos, estes dois aspectos vão construindo o direito à proteção intelectual, à integridade física, à alimentação, à segurança e ao de ter onde morar, como preconizado na Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana.

Como tenho descrito para mim mesmo, Saúde Mental tem a ver com a brancura e a negritude em minhas raízes. Também com os movimentos indígenas, já que meu pai falava que a mãe dele era bugra. Tem a ver com as conquistas das mulheres que me tiveram em seus joelhos, e com tantos outros aspectos. 

O tema envolve a dignidade humana, o usufruto da vida, a vivência da liberdade, o senso de autodeterminação, a ciência de direitos individuais, e inclusive, dos direitos sexuais, como nos aponta a Constituição do Brasil em seu Artigo 1º, parágrafo terceiro - a dignidade da pessoa humana.

Desenvolvimento

Caminhos para atuação ideológica e política:

Tanto a atuação na Pedagogia, como na Psicologia me leva também a defender o direito à moradia, como uma questão primária do cidadão. Resulta em saúde integral. É bastante interessante esta defesa no Movimento Nacional da População de Rua. O MNPR relata que, aproximadamente, 50.000 brasileiros estão morando nas ruas. Só em São Paulo há, nas ruas, por volta de 13.500 pessoas, sendo 70% não brancas, sem o 1º grau completo e 71% vivendo na economia informal.

Outro lado que preciso defender é o da inclusão social, como um tema crucial da nação brasileira. Ver negros, brancos, povos da floresta, crianças, mulheres, portadores de deficiências e de transtornos mentais, inclusos na sociedade, significa trabalhar na resiliência da integridade física, psicológica, moral, espiritual dessas pessoas. Estou contente por estes assuntos estarem contemplados e serem ampliados nas discussões do VI Congresso Brasileiro de Psicologia: Ciência e Profissão, agora em novembro de 2022, por meio da participação da Associação Brasileira de Psicoterapia (ABRAP) e outras entidades da sociedade.

Como desde cedo me percebi com uma dotação maior no mundo das artes e da cultura, passei a compreender que Saúde Mental deve ser vista na diversidade cultural e ser uma temática contemplada por programas governamentais.

O fato de meus pais, embora tendo apenas a educação básica, nos incentivarem, a mim e meus irmãos, a buscar cultura e educação formal, fazendo com que tivéssemos, todos, formação superior, me fez ver que ações para um acesso genuíno ao conhecimento, como o digital, por exemplo, necessita vir desde a infância e este saber abre portas para assegurar a Saúde Mental em vários aspectos da vida social. O acesso ao domínio digital, favorece a diminuição da desigualdade social e amplia as possibilidades de trabalho e as futuras possibilidades escolares. A experiência digital também amplia e assegura maior probabilidade de encontrar atendimento médico na rede nacional de saúde, bem como transitar entre as ofertas de cobertura pelas seguradoras privadas de planos de saúde.

A atuação na Pedagogia e na Psicologia, além disso, tem me levado à contínua disciplina de higienizar meu discurso pessoal, retirando termos como: “zémané”, “joão-ninguém”, “lelé”, “pinel”, “boçal”, loucos, mendigos, branquelo, vadios, “debiloides”, “moloides”, fracotes etc. E assim vou ficando cada vez mais “maluco beleza” na minha vida diária. 


Caminhos para atuação prática e vivencial:

Tenho aprendido como psicoterapeuta que é necessário atuar para influenciar o meu contexto pessoal, propondo debates e iniciativas de ampliação e de superação de preconceitos em direção a estas garantias e em negociações contínuas, para se ter uma visão mais de coletivo, do que de indivíduos.

A atuação como um professor que pretende disseminar a prática da Psicoterapia com Abordagem na Resiliência (PAR), faz-me lutar para assegurar verbas para a pesquisa de ponta na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – nossa CAPES. Como também de já ter inscrito no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a nossa linha de pesquisa da PAR, buscando examinar as melhores práticas em Saúde Mental, na formação de psicoterapeutas brasileiros.


Que possamos celebrar este tema da Saúde Mental, durante todo o ano, e não apenas no dia 10 de outubro. Afinal, é um assunto para o ano todo. 


Consultas para organização do texto:

- Constituição da República Federativa do Brasil.1988 (https://www2.camara.leg.br/legin/fed/consti/1988/constituicao-1988-5-outubro-1988-322142-publicacaooriginal-1-pl.html)

- Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana, de 1948 (Artigo XXV) 

- Saúde Mental – Einstein, https://www.einstein.br/saudemental 

- VI Congresso Brasileiro de Psicologia: Ciência e Profissão (2022) http://www.cbpsi.org.br/#programacao 

- CFP e o V Congresso Nacional da População de Rua https://site.cfp.org.br/cfp-participa-do-v-congresso-nacional-da-populacao-de-rua/ 


Sobre o autor:

George Barbosa (CRP: 06/45154)

Presidente da Sociedade Brasileira de Resiliência (SOBRARE). Pedagogo, Psicólogo, Mestre e Doutor em Psicologia. Pós-Doutor em “A psicologia do Coaching” (UNIRIO). Especialista em Psicologia Clínica pelo CFP. Especializado em Terapia de Casal e Família e em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente se especializando em Neuropsicologia Aplicada ao Transtorno do Espectro Autista. Membro, Conselheiro e Facilitador do Núcleo de Estudos em Resiliência e Neurociências na Assoc. Bras. de Recursos Humanos - SP. Associado do Grupo de Doutores da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Associado e Membro do Conselho Supervisor da Associação Brasileira de Psicoterapia (ABRAP). Associado da American Psychological Association (APA) e da Society for Psychotherapy Research (SPR).